
“Sendo vivo, acontece de tudo”
“Sendo vivo, acontece de tudo”, diz Silvestre Francisco Marques, o filho de lavradores que ajudou a estabelecer a condição de porto pesqueiro do Araçá e instituiu uma dinastia política que ultrapassa cinco gerações.



“Eu vivo do que eu produzo com a minha mão”, garante Johannes Lacerda, um jovem ceramista com muito caminho pela frente
“Eu vivo do que eu produzo com a minha mão”, garante Johannes Lacerda, um jovem ceramista com muito caminho pela frente
Seu Aldo Rocha nunca foi um grande pecuarista, mas já teve todo o rebanho da península sob seus cuidados de vacinador e veterinário prático.



Telma Freitas é uma mãe pela diversidade. Militante da causa LGBT+, essa paulista criada na Mooca passou dificuldades na infância, marcada pela violência doméstica, construiu a vida no Centro-Oeste, embalada no samba, e hoje, mãe de uma pessoa trans, ajuda outras famílias a acolher as diferenças e a enfrentar a discriminação.
Ao lado da Bread King, no Alto Perequê, uma placa fixada no muro em outubro de 2017 indica que a praça da localidade homenageia Manoel Honorato da Silva. Poucos passos adiante, no outro lado da avenida principal, está a Servidão Silva e o lar de dona Teia, a viúva do homenageado e memória do lugar. Se quiser saber sobre a Rua do Fogo, é a ela que se tem de perguntar

“Sendo vivo, acontece de tudo”, diz Silvestre Francisco Marques, o filho de lavradores que ajudou a estabelecer a condição de porto pesqueiro do Araçá e instituiu uma dinastia política que ultrapassa cinco gerações.

Aos 91 anos de idade, dona Maria, a decana do Araçá, já não conta histórias. Há cinco anos convivendo com o mal de Alzheimer, vai se tornando “esquecida”, encarcerando no fundo do inconsciente um tempo que pouca gente ainda recorda ou teve a oportunidade de conhecer.

Há quase 60 anos João Antônio Sombrio deixou as terras da família em Braço do Norte para se tornar o João Dentista em Porto Belo, tornando-se testemunha e personagem das mudanças que a cidade tem vivido desde então.

Não espere tanta seriedade de Arão Francisco Mafra. Aos 74 anos de idade, este pescador aposentado nascido na “Praia Grande” tem humor de garoto. Adora inventar histórias de conhecidos, que ventila pelos bares como se fossem reais, de pregar peças e brigar com galos.

Um terreno aos pés do Morro do Bicudo, no Alto Perequê, abriga a morada e o ateliê do artista Edmundo Campos. Artista não: “Sou um operário de mim mesmo”, define-se o itajaiense, que há quase 40 anos buscou na argila um sentido de vida e conquistou um meio de expressão. Sua obra, hoje, corre o mundo.

Telma Freitas é uma mãe pela diversidade. Militante da causa LGBT+, essa paulista criada na Mooca passou dificuldades na infância, marcada pela violência doméstica, construiu a vida no Centro-Oeste, embalada no samba, e hoje, mãe de uma pessoa trans, ajuda outras famílias a acolher as diferenças e a enfrentar a discriminação.

Seu Aldo Leonardo Rocha nunca foi um grande pecuarista, mas já teve todo o rebanho desta península sob seus cuidados. Vacinador e veterinário prático, o filho de Leonardo Rocha também salvou muito animal doméstico, numa época em que profissional com diploma de faculdade não existia. Aposentado e vivendo no mesmo chão em que nasceu, às margens da Estrada Geral do Alto Perequê, Aldinho mantém a rotina de homem do campo: “Quem tem um sitiozinho como eu tenho, o serviço nunca para”.

Pelo faro, seu Alvancir da Silva determina se a fornada está no ponto. Nativo do Sertão de Santa Luzia, Didico, como é conhecido, preserva a tradição dos engenhos de farinha — é proprietário de um dos poucos que Porto Belo ainda preserva. Lavrador a vida inteira, já não tem saúde para atuar diretamente na lida, mas passa para as filhas o que sabe e, com sua experiência, ajuda a manter azeitadas as engrenagens dessa arte popular.

Depois que Marta Pinheiro Passos benzeu pela primeira vez, faz 30 e poucos anos, nunca mais parou de bater gente à sua porta. Sempre que a medicina moderna se mostra inconsistente — ou porque o povo confia mais no seu saber —, dona Marta recorre ao conhecimento herdado dos antigos para curar. Dor de cabeça, carne rasgada, depressão, zipra, vermes… a lista de males é grande — assim como é enorme a disposição dessa pequenina senhora em ajudar. Mas ela não aceita crédito nenhum por isso: “Quem faz a obra é Deus”, exalta. Aos quase 70 anos de idade, dona Marta é uma mestra à procura de alguém que perpetue a tradição.

“Meu dom vem de Deus”, afirma dona Jaci, moradora tradicional do Jardim Dourado, uma neta de escravo e benzedeira requisitada que passou alguns maus bocados e, entre idas e vindas, veio finalmente sossegar à margem da Pedro Paulo dos Santos (nome extraoficial da rua que homenageia seu falecido marido). Da vida seca em Santa Luzia até os tempos de bonança em Joinville e o retorno a Porto Belo, dona Jaci não busca propósito que não caiba nesta sentença simples: “A vida é assim”.

“Uma criança que cresce perto da arte vai ser um adulto melhor”, confia Patrícia Estivallet, professora, artesã e um exemplo de como esse contato pode moldar o caráter e inspirar um caminho de realização pessoal. Há quinze anos em Porto Belo, a gaúcha garante que a mudança foi “a escolha mais bem feita” de sua vida.

O Valongo vive no coração de José Carlos Caetano, agricultor e funcionário público que reparte os dias da semana entre seu trabalho pela Prefeitura, varrendo as ruas do centro, e o cuidado com sua criação e suas plantas na sua comunidade de origem. No cotidiano deste autêntico homem da roça faz-se a ponte entre extremos geográficos, étnicos e culturais e desvelam-se as peculiaridades do bairro mais original desta península.
