
“Sendo vivo, acontece de tudo”
“Sendo vivo, acontece de tudo”, diz Silvestre Francisco Marques, o filho de lavradores que ajudou a estabelecer a condição de porto pesqueiro do Araçá e instituiu uma dinastia política que ultrapassa cinco gerações.



“Eu vivo do que eu produzo com a minha mão”, garante Johannes Lacerda, um jovem ceramista com muito caminho pela frente
Seu Aldo Rocha nunca foi um grande pecuarista, mas já teve todo o rebanho da península sob seus cuidados de vacinador e veterinário prático.
“Eu vivo do que eu produzo com a minha mão”, garante Johannes Lacerda, um jovem ceramista com muito caminho pela frente



Telma Freitas é uma mãe pela diversidade. Militante da causa LGBT+, essa paulista criada na Mooca passou dificuldades na infância, marcada pela violência doméstica, construiu a vida no Centro-Oeste, embalada no samba, e hoje, mãe de uma pessoa trans, ajuda outras famílias a acolher as diferenças e a enfrentar a discriminação.
Ao lado da Bread King, no Alto Perequê, uma placa fixada no muro em outubro de 2017 indica que a praça da localidade homenageia Manoel Honorato da Silva. Poucos passos adiante, no outro lado da avenida principal, está a Servidão Silva e o lar de dona Teia, a viúva do homenageado e memória do lugar. Se quiser saber sobre a Rua do Fogo, é a ela que se tem de perguntar

“Sendo vivo, acontece de tudo”, diz Silvestre Francisco Marques, o filho de lavradores que ajudou a estabelecer a condição de porto pesqueiro do Araçá e instituiu uma dinastia política que ultrapassa cinco gerações.

“Eu vivo do que eu produzo com a minha mão”, garante Johannes Lacerda, um jovem ceramista com muito caminho pela frente

“Eu gosto é de aventura”, diz o pescador, carpinteiro naval e caminhoneiro ocasional Samuel Valdemar da Silva, o dono de um estaleiro às margens do rio Santa Luzia, lá onde Porto Belo e Tijucas se encontram. De riso fácil, seu Samuel guarda na lembrança as mudanças que o bairro viveu nas últimas seis décadas e celebra uma vida que se fez em milhas de mar e quilômetros de chão. No limiar da aposentadoria, ainda encontra alegria para equipar seu caíco e sair à cata de um belo cardume de tainhas.

Nascido num tempo de pés descalços, tardes de lavoura e noites de breu, Manoel João dos Santos conheceu a pobreza. Por isso, não titubeia: a vida hoje em dia é bem melhor. “Já se nasce em berço de ouro”, diz o pescador criado na praia do Estaleiro, que largou remo, espinhel e as lanchas do entorno e se incorporou às primeiras levas de patrícios que saíram para ganhar a vida nas parelhas de Santos. Viúvo e aposentado, Mané João passa os dias entre caminhadas, os cuidados da filha do coração e os cultos na Assembleia de Deus.

O Valongo vive no coração de José Carlos Caetano, agricultor e funcionário público que reparte os dias da semana entre seu trabalho pela Prefeitura, varrendo as ruas do centro, e o cuidado com sua criação e suas plantas na sua comunidade de origem. No cotidiano deste autêntico homem da roça faz-se a ponte entre extremos geográficos, étnicos e culturais e desvelam-se as peculiaridades do bairro mais original desta península.

“Eu me lembro de tudo”, confidencia dona Nide, uma viúva de 84 anos que nas noites insones reprisa o que viveu até aqui: as dificuldades da infância pobre, o casamento como extensão da luta diária pelo pão, a criação dos filhos, a saudade daqueles que partiram. “A vida da gente daria um romance”, afirma com um brilho de nostalgia no olhar. Se fosse romance, teria muito de drama — assim como um final feliz: sua casa é hoje o centro de uma agitada e harmoniosa vida familiar.

“Meus filhos não vão passar pelo que passei”. Mais que um desejo, essa certeza direcionou a trajetória de Iracema Soares, nascida de família humilde e desde nova acostumada às agruras da vida. Para cumprir com esse destino, trabalhou duro e sofreu, mas hoje sente a satisfação de saber que sua missão foi concluída com êxito.

“Meu dom vem de Deus”, afirma dona Jaci, moradora tradicional do Jardim Dourado, uma neta de escravo e benzedeira requisitada que passou alguns maus bocados e, entre idas e vindas, veio finalmente sossegar à margem da Pedro Paulo dos Santos (nome extraoficial da rua que homenageia seu falecido marido). Da vida seca em Santa Luzia até os tempos de bonança em Joinville e o retorno a Porto Belo, dona Jaci não busca propósito que não caiba nesta sentença simples: “A vida é assim”.

O italiano Giuseppino Nicoletti tem um quê de Forrest Gump: percorreu, no decorrer de sua longa existência, fatos e personalidades marcantes. Ao lado do irmão Bruno, fez mais que testemunhar: foi agente da história, ao exercer o papel de pioneiro do mergulho e fabricar roupas de borracha na Argentina, no Chile e na Venezuela quando ninguém mais fazia. Há quase três décadas vivendo em Porto Belo, esse aventureiro discreto segue sendo a referência da Pino — sua marca de roupas de neoprene — enquanto observa com que velocidade a cidade se transforma à sua volta.

Embora tenha nascido num bairro de Itajaí, Maria Ivone Amâncio só veio a conhecer a cidade natal depois de 22 anos de peregrinação, impulsionada pelo desassossego de seu pai, em permanente mudança. Dali, seguiu os pais até Porto Belo, onde conheceu seu futuro marido e fincou raízes num enclave familiar em pleno centro da cidade: a Vila Mateus. Fundada pelo sogro de Ivone, a pequena comunidade foi centro administrativo nos anos 1960 e hoje permanece um reduto discreto aos pés do morro da Estação.

Telma Freitas é uma mãe pela diversidade. Militante da causa LGBT+, essa paulista criada na Mooca passou dificuldades na infância, marcada pela violência doméstica, construiu a vida no Centro-Oeste, embalada no samba, e hoje, mãe de uma pessoa trans, ajuda outras famílias a acolher as diferenças e a enfrentar a discriminação.

Um terreno aos pés do Morro do Bicudo, no Alto Perequê, abriga a morada e o ateliê do artista Edmundo Campos. Artista não: “Sou um operário de mim mesmo”, define-se o itajaiense, que há quase 40 anos buscou na argila um sentido de vida e conquistou um meio de expressão. Sua obra, hoje, corre o mundo.
