A casa de número 360 da Rua José Guerreiro Filho, a mais ou menos 500 metros da subida do morro do Zimbros, é o refúgio de dona Iracema. Pintada em tom pastel, com molduras cor de telha, tem na varanda, próximo da porta, um vaso com flores de plástico. No quintal, plantas crescem livremente, indicativo de que a proprietária não lhes dá muita atenção – ou simplesmente não tenha tempo para elas. Aos 77 anos de idade, Iracema Maria Soares (o “Geremias” que ganhou ao casar ela não faz questão de usar) mantém-se ativa. As máquinas de costura na sala e na cozinha são testemunhas. Assim como a casa em si é testemunha de que esta senhora de olhos verdes espertos, 1,60 e poucos de altura, conseguiu: após uma quase vida inteira de privações e sacrifício, Iracema encontrou paz e saudade na solidão.

“Hoje a gente tem descanso”, confirma a viúva, que atualmente vive só. Isso é motivo de pesar, embora duas de suas três filhas remanescentes (um casal de filhos já faleceu) morem a poucas quadras de distância, duas netas sejam suas vizinhas e ela reconheça ser cercada de cuidados. Mas é possível que haja silêncios demais em suas horas. Mesmo assim, ela deseja ainda muitos anos em seu futuro. “A vida é muito gostosa”, conclui.

O passado, de penúria, começou em Tijucas. Foi em Oliveira, bairro do interior daquela cidade, que se formou a família de Getúlio Manoel Soares e Maria Rosa de Jesus, pais de Iracema. O casal teve quinze filhos, dos quais dois morreram cedo. “Nós éramos muito pobres”, lembra.

Embora tivesse tantas bocas para alimentar, Getúlio não tinha emprego fixo. Ganhava a vida vendendo mercadorias que carregava em lombo de cavalo. Mascateava peixe, que trazia de Zimbros, berbigão das praias de Porto Belo e “carne verde”, entre outros produtos. Vendia-os “lá praqueles sertões” e só quando ele voltava com algum dinheiro é que se podia comer. Muitas vezes, já tarde da noite.

Por volta de 1946, Getúlio trouxe a família para Porto Belo. Tinha acertado o aluguel de uma casa na cidade, numa época em que não havia muitas disponíveis. Ao chegar com as posses e os filhos, viu-se na rua: o proprietário alugara o imóvel para outra pessoa. Iracema, a filha do meio, tinha sete anos de idade.

Sem alternativa, o recém-chegado abrigou precariamente suas crianças na praia, ao lado de um barracão de pesca próximo de onde hoje está o píer municipal. O rancho pertencia a um pescador de Zimbros, seu Tintino. O filho deste, Milton, ao encontrar Getúlio – a quem conhecia – e os filhos ao relento, sentiu o coração encolher: “Tanta criança, tudo morando na rua”, disse ao relutante pai, insistindo que os deixasse ficar no barracão. Amolecido, Tintino concordou.

Para Iracema e os irmãos, quando aquelas portas se abriram, “foi uma beleza”. Havia uma canoa que servia de cama e os banhos eram tomados direto no mar. “Aquele mar lindo, aquele mar clarinho. Quando chegava a noite de lua, ele vinha, batia e fazia ‘chuá’. Era a coisa mais linda”, ela recorda.

Quando mais uma temporada de pesca chegou, os Soares já tinham encontrado um novo lar. Era, na verdade, uma casa em construção, apenas chão e paredes, próxima do então Grupo Escolar Tiradentes. Mas um vizinho ajudou a colocar janelas e portas e o lugar serviu de refúgio por algum tempo. Ficou marcado porque foi ali que Iracema perdeu uma irmã, vítima de sarampo.

Houve outras moradas, mais no centro e depois no bairro Perequê – de onde Iracema só voltaria casada. Entre idas e vindas, os filhos de Getúlio e Maria foram crescendo – sem infância. Aos oito anos, Iracema já labutava como empregada doméstica, pois tinha uma compleição melhor que os irmãos mais velhos, “tudo entanguido”.


“Minha mãe era muito nazista. Qualquer coisinha a gente tava apanhando”


Mas nem isso a livrava da mão pesada do pai. Getúlio era rigoroso e a esposa, mais ainda. “Minha mãe era muito ‘nazista’! Qualquer coisinha, a gente tava apanhando”, revela, contando da surra que um dos irmãos mais moços, Manoel, levou por simplesmente agir como criança. A missão do garoto era conduzir um cavalo até o pasto, mas ele distraiu-se brincando com outros meninos e o pai foi buscá-lo. Apanhou tanto que ficou “lavadinho de sangue”, e só não sofreu mais porque um veranista, Zuza Chaves, dono da fábrica de doces Chaves, de Tijucas, interveio, evitando o pior.

Na época, Porto Belo era o que ela descreve como um lugar paupérrimo: “O povo vivia muito era de berbigão”. O molusco bivalve que até hoje prolifera no Baixio muitas vezes era cozido, secado ao sol e armazenado para se ter o que comer em época de aperto. Era comum também que se pescasse siri, crustáceo ainda muito apreciado nos dias de hoje. Iracema vivia escavando a areia lodosa do Baixio na maré rasa em busca das conchas ou pondo puçás para capturar o decápode de garras agudas – e foi numa dessas ocasiões que seu futuro marido a viu pela primeira vez.

João Antônio Geremias costumava percorrer a praia quando vinha do Perequê, onde morava, comprar peixe no Araçá. Uma vez, viu a menina e seus irmãos nus dentro d’água, concentrados na pescaria (“não tinha ninguém mesmo, e estava calor”, explica aos risos). O rapaz deve ter achado a cena curiosa, guardando-a na memória para rememorar muitos anos depois, quando os dois já estavam casados.

Assim como confessou a sua, no mínimo equivocada, primeira tentativa de aproximação. Isso ocorreu numa ocasião em que Iracema e Pedro, outro dos irmãos, foram ao Sertão do Trombudo, em Itapema, a pedido da mãe. Passando pelo Perequê, avistaram dois moços trabalhando numa roça. Eram João Antônio e o irmão deste, Pedro Nélio. João queria atrair a atenção da garota, mas não mostrou talento de conquistador. Ao contrário, atiçou um cachorro contra a dupla. O animal foi facilmente dispensado com uma saraivada de pedras. João apelou para o mesmo expediente e passou a atirar cascalho nos irmãos, que revidaram.

A viagem seguiu, mas, na volta, Iracema e Pedro passaram pelo mesmo local. Novamente avistaram os irmãos, que chamaram pela menina. Irritada, ela xingou: “Vão-se embora, seus vagabundos, seus ‘papa-pirão’!” (mais risadas). Eles, então, repetiram a tática da artilharia de pedras. Logo à frente, encontram um senhor e queixaram-se dos maus modos dos irmãos. O homem era o pai deles e garantiu que diria-lhes “uns desaforos”.

Passou-se algum tempo sem que Iracema visse o desastrado “Don Juan”. Até que sua família mudou-se para o Perequê e, numa tarde de domingueira, a moça viu aproximar-se um rapaz moreno, bonito, querendo tirá-la para dançar. Reconheceu naqueles olhos azuis o sujeito que atirou-lhe pedras e sentiu receio. Mas João Antônio demonstrou melhor desenvoltura dessa vez e ambos conversaram. Nasceu assim o namoro. Oito meses depois, ambos “fugiram”. Iracema tinha quatorze anos de idade.


“O povo vivia muito era de berbigão”


O casamento, oficiado três anos após a fuga, parecia oferecer uma alternativa ao jugo severo dos pais. Mas foi qualquer coisa, menos libertador. João tinha 22 anos quando se juntaram e, depois de um tempo fazendo bicos aqui e ali, foi pescar em Santos. Do que ele ganhava, a esposa via muito pouco. “Ele não tinha cabeça”, afirma. Como estava decidida a garantir aos filhos um destino diferente do seu, continuou trabalhando duro, agora como costureira. Com esforço, conseguiu dar estudo às filhas, três das quais se formaram e seguiram carreira como professoras. A mais jovem delas, Venina, retribuiu ajudando a mãe a juntar dinheiro para construírem o próprio teto, encerrando um ciclo de peregrinação por casas de aluguel. Além de costurar, Iracema fazia um bom dinheiro vendendo cerâmica e, com auxílio da renda da filha, conseguiram erguer uma casa de madeira. Alguns anos depois, fizeram uma de alvenaria. A casa ganhou nova reforma há nove anos, à custa das economias de sua proprietária, já viúva e com as filhas encaminhadas.

João Antônio faleceu em 1989, aos 58 anos de idade. Foi vítima de um derrame, embora sua esposa credite a morte aos excessos que cometeu. “Chinelinho”, como era conhecido na cidade, gostava de boemia. Em vão, ela esperou que ajuizasse. Foi, portanto, o final melancólico de uma relação sem afeto. Marcou também o término de um ciclo, iniciado no dia em que ela nasceu. A partir daí, Iracema finalmente teve paz.

 

ARTES DE BENZEDEIRA

Após quarenta anos costurando para sustentar a família, dias inteiros e noites sob luz de querosene, pois eletricidade era um luxo ao qual não se podia permitir, dona Iracema usa suas máquinas apenas como passatempo, fazendo artesanato. Sua última obra foi uma bolsa de praia, que ainda carece de botões (“Vou buscar pra vocês ver. Posso buscar?”). Suas mãos, que tanto cerziram (“costurei muito para esse Porto Belo”), também ficaram conhecidas na cidade pela capacidade de benzer.

“É um dom que tenho desde que eu nasci”, acredita a senhora, embora o tivesse mantido em segredo durante muitos anos, receosa de assumir a responsabilidade que a tarefa exigia, pois é preciso estar permanentemente à disposição de quem busca uma cura, algo difícil para alguém com tantos afazeres.

Em dado momento, porém, ela não conseguiu mais esconder: “Eu estava me achando muito ruim, doente. Eu caía muito. Às vezes ia varrer um terreiro, me dava uma coisa e eu caía”. Sua conclusão foi a de que adoecia porque se recusava a honrar a dádiva recebida. Ao mesmo tempo, logo que voltou a morar no centro da cidade encontrou muitas crianças sofrendo com vermes, doença capaz de matar, e não podia se furtar a ajudar.

Mesmo na família sua habilidade era um mistério. Quando Vilson machucou o pé enquanto brincava, Iracema o encaminhou a outra benzedeira. Como o menino não apresentasse melhora, ela tomou para si a tarefa. Vilson achou que sua mãe brincava, mas, após três sessões, ele estava curado. Mais tarde, já adulto, sentiu dor nas costas trabalhando embarcado. Ao pisar em terra, correu para se “consultar” com sua mãe. Novamente, deu certo.

Iracema igualmente faz segredo dos procedimentos da benzedura. “Não posso contar”, esquiva-se. Independente disso, goza da aprovação popular, visto que é muito procurada em razão desse saber. A aplicação é variada: mau jeito, inflamações, cobreiro (herpes-zóster), zipra (erisipela), quebranto (mau-olhado), arca caída (dor nas costas), impingem (dermatose). A Sexta-feira Santa costuma ser uma ocasião propícia: já chegou a atender 36 pessoas num dia assim. Ela inclusive trata a si mesma, e garante que com isso gasta muito pouco com medicamentos. “Tem gente que não acredita em benzimento, mas tem que acreditar. Olha o que eu já tenho curado de gente…”, assegura.

 

COLORAU NATURAL E ORGÂNICO

Entre as plantas que crescem ao léu no quintal de dona Iracema estão dois robustos urucuzeiros. Recentemente, como tivessem crescido demais, ocasionando muita umidade e a consequente proliferação de ervas daninhas, ambos precisaram ser podados. Com isso, a floração do urucum, que deveria ter ocorrido em março ou abril, ficou comprometida. Os fregueses vão precisar esperar até agosto, quando as árvores se encherão de cachopas do fruto vermelho pela segunda vez.

Faz tempo que Iracema se dedica à produção do colorau. É outra arte que trouxe da mocidade, o que deixava sua mãe intrigada: “Isso é coisa de índio!”, criticava, provavelmente sem perceber a ironia da frase, visto que deu à filha um prenome indígena. Na língua Tupi, Iracema significa “enxame” (José de Alencar usou de licença poética e deu um sentido mais romântico ao nome da heroína do seu conhecido romance: “Lábios de mel”).

Uma vez, no início do casamento, ela e o marido tiveram uma visita inesperada. Um carro havia quebrado na estrada e João Antônio ofereceu auxílio. O casal de japoneses vinha de São Paulo e aceitou abrigo, visto que não teriam como consertar o veículo prontamente. Ao entrar em casa, a moça viu o urucum que secava sobre a mesa. Informou que o condimento que dele resultava era muito valorizado em seu país de origem e ofereceu-se para ensinar como fazia. Iracema já produzia colorau, mas aceitou a oferta. O treinamento durou uma tarde inteira, resultando no conhecimento que ela aplica até hoje e que é responsável pelo sucesso do seu invejado colorau. A técnica? Nem adianta perguntar: “Isso é segredo de negócio”, sorri. Revela somente que usa ingredientes da melhor qualidade e esteriliza cuidadosamente os frascos em que armazena o produto, arrematando que possui muitos clientes fiéis, os quais só consomem do seu colorau “orgânico e natural”.


No outono da sua vida, Iracema Soares abraça a calmaria que custou a conquistar, mas rejeita o descanso. É porque não sabe ficar parada: “Parece que eu sou elétrica”, justifica. Assim, em lugar do torpor de uma tarde diante da tevê (“só assisto à noite a uma novelinha e o jornal”), prefere ocupar-se de artes manuais, que aprende nas aulas que a Colônia dos Pescadores oferece. Também vai ao forno assar bolos que atormentam a consciência das filhas, sempre zelosas de suas medidas. Não sai muito porque sempre foi caseira, mas tem fome de fazer tudo o que sempre quis mas a necessidade nunca permitiu. Por isso, tudo o que ela quer é mais tempo: “Peço pra eu durar bastante anos ainda, com saúde, pra fazer bastante coisas…” Essa é a sua prece.

(*) Entrevista concedida em 16 de janeiro de 2017.

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