Uma conversa com seu Arão quase sempre tem um final surpresa. Você pode, por exemplo, descobrir que lagartos atendem a assobios. Ou que no “Morro da Saracura”, onde ele passa a maior parte do seu tempo, há mosquitos do tamanho de bichos-paus. Ou ainda, que no mesmo local há tantas mutucas que a aba do seu chapéu pode arquear com o peso delas.

Sim, este filho das Bombas é um fabulista. Porém, nestes tempos em que a pós-verdade assume protagonismo num sinistro cenário internacional, seu Arão contrapõe com um fabulismo lúdico, que o aproxima mais do personagem do filme de Tim Burton (Peixe Grande e suas histórias maravilhosas, de 2004), ainda que as suas tenham uma boa dose de malícia: Arão adora contar histórias, mas também de pregar peças, embutindo num inocente bate-papo alguma mentira cabeluda, que é seguida por uma expressão de falsa seriedade – desmanchada aos poucos enquanto ele se racha de rir por dentro, antevendo a cara de espanto do interlocutor ao descobrir a charada. “Para de contar mentira!”, ralha dona Jucélia, sua esposa, mas ele não tem jeito.

Uma vez, seu gosto por pregar peças voltou-se contra si. Foi quando, trabalhando como vigia na Prefeitura de Porto Belo, surpreendeu-0 uma quadrilha de ladrões de caixas de banco. Ao chegar em casa, depois de passar uma noite de cão, contou a aventura aos familiares. Custou a fazer com que acreditassem nele.

Mas estamos antecipando os fatos. Façamos, portanto, justiça ao ilustre contador de histórias e comecemos esta narrativa como se deve – do começo. E o começo se dá na Praia Grande, onde Arão Francisco Mafra nasceu, em 17 de janeiro de 1943 (está com 74 anos recém-completados).

Praia Grande é como os moradores antigos chamavam a praia de Bombas. Um pouco para os fundos, no lado oposto do morro que divide Porto Belo e o atual bairro bombinense, Francisco João Mafra e Maria Felisbina da Silva construíram uma casa com paredes feitas de barro e assoalho de madeira. Uns 700 metros morro acima, quase defronte ao Iate Clube de Porto Belo, mantinham um minúsculo cafezal. O casal criou sete filhos, cinco homens, duas mulheres (três outros não vingaram). Arão é o quinto da prole.

Chico Mafra tinha sangue belga: seus ascendentes possuíam como sobrenome Plettincks (cuja grafia alterou-se posteriormente para Pletink). Lavrava a terra durante o dia e puxava rede de arrasto ao cair da noite (também dedilhava um violão em épocas de folia). Dona Maria morreu em 1966, aos 56 anos de idade. Seu Francisco em 1988, aos 86.

Arão veio ao mundo pelas mãos de dona Diartina, parteira que morava na beira da praia. Quando garoto, além de ir à escola (estudou até o quarto ano primário), ajudava nas lides da roça e participava dos “ajuntamentos” de garotos, jogando bola em campinhos que eles mesmos improvisavam. Foi uma infância de aperto, trabalho duro e pouca comodidade. A alimentação era quase que exclusivamente proporcionada pelo mar, em adição aos produtos que se podia extrair da terra. Em resumo, pirão d’água e peixe. Não era, por isso, uma infância isenta de alegrias.

Arão guarda com carinho a lembrança das comemorações do Sete de Setembro: “A gente comprava uniforme e ia lá no morro tirar palmito pra fincar e enfeitar a praça”. Nessas datas, as crianças faziam apresentações: “Eu lembro de uma que era eu mais o Dêgo, que já morreu, e nós cantamos ‘A tristeza do jeca’, cada um com um cavaquinho e uma camisa listrada”. Para melhorar a caracterização, tiveram os rostos pintados com a fuligem de uma chapa de fogão.


“A areia depois do ‘combro’ chegava a cantar debaixo do pé”


Também ficou marcado na memória o som característico que a areia que havia logo após o “combro” fazia quando se pisava nela: “Chegava a cantar embaixo do pé”. O combro é a vegetação que marca o limite da praia, porém naquela época havia essa faixa suplementar de areia, de uma brancura ofuscante, que sumiu no decorrer dos anos de ocupação da orla. “Hoje não existe mais”, confirma ele.

Outra característica daqueles tempos era a falta de luz. Não havia rede de iluminação pública (que só chegaria a Bombinhas em 1977), portanto era comum que se fizesse muita coisa às escuras. Normal também que essa condição mexesse com os nervos, levando alguns moradores a terem “visagens”. Arão ouviu do avô da esposa, homem sensato, o estranho encontro que este teve com um boi de mamão que cabriolava à sua frente, sem que houvesse gente debaixo da armação de madeira. Ouviu também sobre a “procissão das almas”, que viam percorrer a praia na noite de Finados. “Mas como é que viam, se não tinha luz elétrica?”, desconfia Arão. “Mas viam”, concede, sorrindo ao atribuir valor à boa fábula.

Em 18 de maio de 1957 (“ou 58, não tenho muita lembrança”), Arão deixou a casa dos pais para vir morar no centro de Porto Belo, a pedido do então prefeito municipal Joaquim Matias, conhecido de Chico Mafra. Neném Matias, como o chamavam (os detratores tinham outro apelido: “‘Zólho’ de Gato”), era dono de um dos poucos estabelecimentos comerciais da cidade, uma loja de secos e molhados localizada onde hoje está a agência da Caixa Econômica Federal – os outros dois comércios mais importantes pertenciam a Antônio Stadler (que também viria a ser prefeito) e Orlando Guerreiro.

“Eles precisavam de alguém pra trabalhar, porque a filha dele, a Lurdinha, tinha casado, e as outras duas estudavam, uma em Joinville e a outra em Tijucas, ou Florianópolis”, explica Arão, que passou a morar com os patrões e se sentia em casa, acolhido como se fora da família. Não apenas auxiliava dona Alda Tavares Matias nas tarefas do comércio como acompanhava Neném Matias em seus compromissos administrativos – como a inauguração de uma ponte no Sertão de Santa Luzia. O lugar, naquele tempo, era um atoleiro, não havia ainda a BR-101 e o transporte até lá era feito um pouco de automóvel, um pouco de carroça. Arão, na época com quatorze ou quinze anos, o prefeito, um vereador e outro correligionário, foram sacolejando até o local da obra. “Ponte que nada! Era um bueiro daqui ali”, recorda. O que não impediu de seu Neném ser respeitosamente saudado pelos moradores locais. “Era uma pessoa muito boa, tinha muitos amigos”, elogia o antigo funcionário.

Que, no entanto, sabia ser enérgico. Arão conta como uma ocasião, para evitar que um vereador de oposição, “Nini Passinho”, votasse um projeto contrário ao seu interesse na Câmara, Neném, com a ajuda do genro, Saul Bértemes, “sequestrou” o sujeito, levando-o de caminhonete até Santa Luzia. No caminho, Nini quase teve um troço. Tiveram que parar o carro, deitá-lo na grama e abanar com os chapéus, até que ele se recobrou e pôde ser levado de volta para casa. Mas o recado foi dado e Nini não apareceu na reunião da Câmara.

Assumido “politiqueiro”, Arão divertia-se acompanhando as tumultuadas campanhas eleitorais da sua mocidade, tanto no tempo de seu Neném como quando Manoel Felipe da Silva Neto, o Piti, concorreu pela primeira vez à Prefeitura, em 1972. As carreatas pelo município estavam sempre sujeitas a emboscadas dos adversários, que punham carros para obstruir a passagem ou simplesmente derrubavam os pontilhões.

Ainda por volta do fim dos anos 1950, início da década de 1960, Porto Belo concentrava seu centro urbano na Rua do Comércio, hoje Manoel Felipe da Silva Neto. A Avenida Governador Celso Ramos, atual via principal e acesso a Bombinhas, ficou interditada por muitos anos na altura do Rio Rebelo. “A ponte era caída, só tinha uns paus lá por cima, umas quatro madeiras. Quem passasse, tinha que ficar pulando de um lado para o outro”, descreve Arão, que em 1962 iria deixar a vida tranquila na cidade para se aventurar no mar.

Neném tinha planos de abrir uma filial no Sertão de Santa Luzia e contava com seu protegido para administrá-la. Por outro lado, Oscar, seu irmão mais velho, estava trabalhando em Santos (SP) e queria que ele fosse para lá. Com quase vinte anos de idade, solteiro, Arão não via muito dinheiro – ganhava o suficiente para se manter. Enquanto isso, os rapazes que embarcavam nas “parelhas” que pescavam no litoral paulista voltavam com os bolsos forrados. Devido às circunstâncias, não foi uma decisão difícil de se tomar.


“Sofri igual cachorro na pesca”


Penosa mesmo foi a prática. Acostumado a ter os pés bem plantados no chão e a uma atividade relativamente suave, sofreu “igual cachorro” para se adaptar à nova rotina, enjoando dias sem conta nos conveses da parelha “Bom Dia” e “Boa Tarde”, embarcações minúsculas e insalubres. Na primeira parada da viagem, na praia de Ponta das Canas, litoral de Ilhabela, sentou-se na praça da localidade com a roupa de passeio que havia levado e pensou com amargura sobre o rumo que sua vida havia tomado.

Por sorte, um rosto conhecido o esperava em Santos: a irmã Normézia vivia na cidade com o marido, o também pescador Nerio, e o recebeu em sua casa durante dois meses. Mesmo assim, as coisas demoraram a engrenar. Seu segundo barco, “Alegria”, não fez jus ao nome: em um ano servindo em seu convés, ganhou o bastante apenas para comprar uma muda de roupa. “Fiquei vinte dias fundeado na Armação do Itapocoroi e não pude vir em Bombas porque não tinha dinheiro”, lembra.

Pouco mais de dois anos depois de iniciar na pesca, em seus esporádicos retornos à casa dos pais, Arão iniciou um namoro com Jucélia Nunes da Silva, filha de Alcides Benjamin e Maria Olga da Silva, de Bombinhas, uma “família benquista”, segundo o futuro genro. Foi uma aproximação difícil. Rosa Margarida Pinheiro, a “Mãe Doca”, avó de Jucélia, com quem ela morava, procurou ajudar, mas a moça era reticente. Até que num domingo, após uma tentativa de corte frustrada, Arão voltava para Bombas quando um conhecido que passava o convenceu a retornar a Bombinhas. “Não tinha nada que fazer, voltamos”. Pararam na venda de seu Egídio, tomaram uma bebida, apreciando o movimento. Quando resolveram ir embora, Arão viu Jucélia na janela de casa e decidiu puxar conversa. Mãe Doca o convidou a entrar, ele aceitou e foi assim que começou.

A união (na época, quase ninguém se casava, apenas “fugia”) ocorreu em julho de 1967, uns três anos após o início do namoro. Arão tinha 24 anos, Jucélia, 23. Mudaram-se para Porto Belo e mais uma vez Normézia deu-lhe uma mão. Nessas alturas, sua irmã havia se estabelecido na cidade, numa casa com uma pequena varanda ao lado de onde hoje está localizada a Peixaria do Japonês, e deu abrigo ao casal. Logo depois, eles se mudaram para uma casa alugada, onde permaneceram durante um ou dois anos. “Depois eu comprei essa morada aqui”, diz, referindo-se à propriedade que possui na Rua José Guerreiro Filho, 405, a duas quadras da Prefeitura.

Ali se criaram os oito filhos do casal. Sandra, a primogênita, nasceu em junho de 1968. Num período de uma década e meia, vieram os demais. Quatro homens, quatro mulheres. Com o marido permanentemente fora, pescando no litoral paulista ou do Rio Grande do Sul, coube a Jucélia a difícil tarefa de prover e educar as crianças. Embora a situação financeira de Arão tivesse melhorado, especialmente depois que ele obteve carta de mestre em 1972, não sobrava dinheiro. Para a dona de casa, foi um período de sacrifício e solidão, destino que quase toda esposa de homem do mar compartilha.

As coisas poderiam ter sido piores, pois em 28 agosto de 1975 Arão sofreu um grave acidente. Estava no Guarujá, esperando uma melhora no tempo para zarpar, quando um tripulante o convidou a atravessar o canal até Santos. Lá, próximo de um posto de gasolina, embarcou no fusca de alguns conhecidos e foram até a cidade tomar uns drinques. Na volta, sob chuva, outro carro cortou a frente do fusca, que raspou na traseira do veículo, subiu no meio-fio e bateu em um poste. “Bem onde eu estava. Botou a minha cara toda pra dentro, não sei como não morri”.

Encaminhado para a Santa Casa de Misericórdia, ficou quase uma semana internado sem que os familiares tivessem notícia do seu paradeiro. Dia 09 de setembro, passou por uma cirurgia para reconstituir o osso da face (sua quinta filha, Márcia, nascera havia apenas três dias). Oscar tinha enfim sido comunicado, assim como Jucelina, sua cunhada que vivia em São Paulo, e estavam prestando-lhe assistência. Ficou mais um tempo hospitalizado, até finalmente ser liberado para viajar e convalescer em casa.

Arão aposentou-se da pesca em 1991. Em terra, ensaiou um retorno ao comércio, arrendando o bar anexo à antiga rodoviária de Porto Belo. Ficou por pouco tempo (“não deu certo”). Trabalhou ainda como marinheiro no iate clube da cidade, pilotou uma escuna de passeio no verão e cuidou da loja de artigos de R$ 1,99 da segunda filha, Carmem. Por volta de 2002, prestou concurso público municipal e foi admitido para o cargo de vigia. Ficou dez anos na função, primeiro zelando pela garagem da Secretaria de Obras, depois cumprindo expediente na Prefeitura – onde se tornou presença habitual no corredor central da repartição, entretendo funcionários e visitantes com seus “causos” e invencionices.

Tudo ia bem, até a administração municipal instalar, colado à Prefeitura, um caixa eletrônico de banco. Uma péssima ideia, considerando que o interior do prédio fornecia cobertura a quem se dispusesse a arrombá-lo – bastava render o vigia de serviço.


“Os ladrões jogaram o cara em cima de mim e me ‘calçaram’”


Foi o que um grupo de homens armados decidiu fazer. Antes que o fizessem, Arão recebeu duas visitas desconhecidas e suspeitas. Perguntaram coisas sem sentido e depois foram embora. Não é certo que tivessem relação com o assalto, mas o fato é que, numa madrugada de abril, enquanto conversava nos fundos da Prefeitura com um colega que fazia ronda pela cidade de moto, Arão observou dois homens, de jaquetas pretas e bonés, saltarem de um carro branco e caminharem em direção à praça, conversando. Saíram de vista, mas deram a volta pelo prédio e os surpreenderam. “Jogaram o cara em cima de mim, e me ‘calçaram’”.

Um conhecido de Arão, figura acostumada a circular pela madrugada, viu os homens entrando no prédio e resolveu investigar. Acabou virando o terceiro refém, o que, para o vigia, foi “a minha livrança. Senão eu não sei o que ia fazer”.

O trio foi colocado em um banheiro. “Aí eu passei mal, me deu um troço esquisito”. Os bandidos então os levaram até a sala da recepção, amarraram os outros dois e usaram Arão como guia. Pelo rádio, informaram os comparsas de que a situação estava sob controle. “Daqui a pouco começou a fumaceira lá dentro” [do maçarico cortando a lateral do caixa eletrônico].

Terminada a operação, os assaltantes prenderam os três na cozinha e foram embora. Depois de um momento de pânico e gritaria, eles conseguiram se soltar e os dois rapazes pularam uma janela, deram a volta e arrombaram a porta, libertando o assustado vigia. “Minha pressão estava em dezoito, não sei como não explodiu o coração”.

Uns oito meses depois, a quadrilha voltou em outras duas ocasiões (Arão não estava de serviço em nenhuma delas), o que levou a administração pública a se livrar do caixa. Foi instalado um gabinete com dois novos equipamentos na praça, alguns metros adiante do antigo endereço, que uma explosão mandou pelos ares em 2013. Com o início das obras de reforma da praça municipal, ano passado, o gabinete foi removido.

Definitivamente aposentado, agora Arão Francisco Mafra passa a maior parte do seu tempo em Bombas, numa pequena morada construída um pouco acima de onde estava a casa de seus pais. Seu neto, Felipe, rebatizou o lugar de “Morro da Saracura”. Algumas décadas antes, as terras de Chico Mafra foram divididas entre os herdeiros. A parte que coube a Arão foi, em sua maioria, repassada aos filhos (Carmem e o marido, Sebastião, além de Felipe, filho do casal, vivem lá).

No morro, ele e a esposa vivem tranquilos, cuidando de uma criação (alguns dos animais são ingratos. Circula entre os filhos um vídeo que mostra Arão engalfinhando-se com um dos galos. Ele jura que o bicho vive preparando-lhe emboscadas) e relembrando histórias antigas. Mas cuidado: não tome tudo o que este gaiato senhor diz como verdade. Perceba se ele não está estreitando os olhos num sorriso sorrateiro. Se assim for, é certo que você caiu numa de suas peças.

(*) Entrevista concedida em 03 de dezembro de 2016.

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