
Dentista e comerciante
Há quase 60 anos João Antônio Sombrio deixou as terras da família em Braço do Norte para se tornar o João Dentista em Porto Belo, tornando-se testemunha e personagem das mudanças que a cidade tem vivido desde então.



“Eu vivo do que eu produzo com a minha mão”, garante Johannes Lacerda, um jovem ceramista com muito caminho pela frente
Seu Aldo Rocha nunca foi um grande pecuarista, mas já teve todo o rebanho da península sob seus cuidados de vacinador e veterinário prático.
“Eu vivo do que eu produzo com a minha mão”, garante Johannes Lacerda, um jovem ceramista com muito caminho pela frente



Telma Freitas é uma mãe pela diversidade. Militante da causa LGBT+, essa paulista criada na Mooca passou dificuldades na infância, marcada pela violência doméstica, construiu a vida no Centro-Oeste, embalada no samba, e hoje, mãe de uma pessoa trans, ajuda outras famílias a acolher as diferenças e a enfrentar a discriminação.
Ao lado da Bread King, no Alto Perequê, uma placa fixada no muro em outubro de 2017 indica que a praça da localidade homenageia Manoel Honorato da Silva. Poucos passos adiante, no outro lado da avenida principal, está a Servidão Silva e o lar de dona Teia, a viúva do homenageado e memória do lugar. Se quiser saber sobre a Rua do Fogo, é a ela que se tem de perguntar

Há quase 60 anos João Antônio Sombrio deixou as terras da família em Braço do Norte para se tornar o João Dentista em Porto Belo, tornando-se testemunha e personagem das mudanças que a cidade tem vivido desde então.

“Eu vivo do que eu produzo com a minha mão”, garante Johannes Lacerda, um jovem ceramista com muito caminho pela frente

Não espere tanta seriedade de Arão Francisco Mafra. Aos 74 anos de idade, este pescador aposentado nascido na “Praia Grande” tem humor de garoto. Adora inventar histórias de conhecidos, que ventila pelos bares como se fossem reais, de pregar peças e brigar com galos.

A paixão pelas histórias (e pela História) e uma nostalgia dos tempos de boi do campo pulsam no sangue de Carlos Roberto de Souza, advogado, contador e administrador — ou simplesmente açougueiro, título que mais lhe convém. Filho de tropeiro, Betinho cresceu olhando pastos, abatendo animais e vivenciando a farra, numa época em que ainda não era maldita. E ele não renega esse passado, apenas lamenta que seja um legado que se apaga. Antes que o critiquem, Betinho avisa: é preciso conhecer o contexto.

A música como ganha-pão, ideal artístico, discurso filosófico; a corrida como celebração da vontade e da resistência que não conhece limites: duas facetas do músico nativo André Gomes de Miranda, um artista em busca de si mesmo.

Ele saiu de casa aos doze anos de idade, de pés descalços e com apenas a quarta série primária, e se tornou um respeitado profissional da saúde, de cujos cuidados por muito tempo Porto Belo dependeu. Parteiro, médico, farmacêutico… seu Bráulio tinha remédio para tudo.

“Uma criança que cresce perto da arte vai ser um adulto melhor”, confia Patrícia Estivallet, professora, artesã e um exemplo de como esse contato pode moldar o caráter e inspirar um caminho de realização pessoal. Há quinze anos em Porto Belo, a gaúcha garante que a mudança foi “a escolha mais bem feita” de sua vida.

Embora tenha nascido num bairro de Itajaí, Maria Ivone Amâncio só veio a conhecer a cidade natal depois de 22 anos de peregrinação, impulsionada pelo desassossego de seu pai, em permanente mudança. Dali, seguiu os pais até Porto Belo, onde conheceu seu futuro marido e fincou raízes num enclave familiar em pleno centro da cidade: a Vila Mateus. Fundada pelo sogro de Ivone, a pequena comunidade foi centro administrativo nos anos 1960 e hoje permanece um reduto discreto aos pés do morro da Estação.

“Eu me lembro de tudo”, confidencia dona Nide, uma viúva de 84 anos que nas noites insones reprisa o que viveu até aqui: as dificuldades da infância pobre, o casamento como extensão da luta diária pelo pão, a criação dos filhos, a saudade daqueles que partiram. “A vida da gente daria um romance”, afirma com um brilho de nostalgia no olhar. Se fosse romance, teria muito de drama — assim como um final feliz: sua casa é hoje o centro de uma agitada e harmoniosa vida familiar.

No limiar dos seus 103 anos de idade, dona Malfiza Neves lembra do passado como se tivesse acontecido ontem. Nesse tempo de sua memória, as mãos ainda realizam maravilhas na cozinha, impregnando com o aroma de boa comida os encontros sociais da península. No recordar de Malfiza, ainda há um delicado perfume de margaridas no ar.

Dona Cissa e seu Mário viram o Porto Belo dos engenhos e das lavouras se transformar no porto de partida para quem tentava a sorte em Santos e, mais recentemente, na interminável fila de automóveis que congestiona a avenida principal rumo a Bombinhas nos dias de calor. Testemunhas de quase um século de mudanças, permaneceram juntos na adversidade, envelhecendo suavemente ao lado dos seus.

O italiano Giuseppino Nicoletti tem um quê de Forrest Gump: percorreu, no decorrer de sua longa existência, fatos e personalidades marcantes. Ao lado do irmão Bruno, fez mais que testemunhar: foi agente da história, ao exercer o papel de pioneiro do mergulho e fabricar roupas de borracha na Argentina, no Chile e na Venezuela quando ninguém mais fazia. Há quase três décadas vivendo em Porto Belo, esse aventureiro discreto segue sendo a referência da Pino — sua marca de roupas de neoprene — enquanto observa com que velocidade a cidade se transforma à sua volta.
