Para muitos de nós, passados quatorze meses do início da pandemia, a esperada retomada ainda não aconteceu. Especialmente segmentos ligados à cultura, que estiveram entre os primeiros a parar e ainda não encontram ambiente para retornar, as perspectivas seguem sombrias. Ao medo primevo de morrer pela doença que já colheu, no Brasil, mais de meio milhão de almas, soma-se a angústia de ficar sem emprego e renda. Para o projeto documental Retratos de Porto Belo, cujos meios de subsistência enquanto produto cultural demandam oportunidades derivadas de programas de incentivo, o período sabático forçado tem sido ainda mais longo: a última entrevista publicada no site data de novembro de 2019. Ansioso por colecionar novos perfis de moradores emblemáticos da cidade, o trio responsável pela iniciativa monitora o avanço da vacinação e projeta alternativas. Uma delas, a produção de podcasts, vai ganhar nova temporada.

Foi no fim do ano passado que os jornalistas Alcides Mafra, Thiago Furtado e a fotógrafa Isadora Manerich começaram a contar histórias a partir de aplicativos de áudio. Com o auxílio, na produção, do músico Cezinha Silva e, na locução, da cantora Adri Benvenuti, os “retratistas” de Porto Belo produziram quatro episódios da primeira temporada, utilizando como matéria dos programas os temas que são pano de fundo das histórias recolhidas pelo projeto. Assim, tivemos episódios discutindo as marcas do preconceito na comunidade, o passado e o presente da atividade pesqueira e o curioso costume de fugir para casar, comum entre os moradores mais antigos. Para a próxima temporada, a famigerada farra do boi (“polêmica à vista”, prevê Alcides) e a arte de cura das benzedeiras estão entre os assuntos já em produção. “A ideia é lançar mais cinco episódios”, antecipa Thiago.

Embora parte de um meio de difusão em franca ascensão, com 34,6 milhões de ouvintes no país, segundo a Associação Brasileira de Podcasters (Abpod), o Podcast do Retratos ainda não engrenou. Na primeira temporada, a audiência não passou dos dois dígitos, reflexo provável da pequena aderência que o formato desfruta entre o público local. Apesar disso, os idealizadores do programa acreditam que vale a pena insistir. “Primeiro, pelo fato de que o podcast é um meio muito bacana de produzir conteúdo, que tem um pouco de rádio e de storytelling”, explica Alcides, cuja experiência na imprensa local remonta à existência do jornal Pirão d’água, entre os anos de 1996 e 2001. “Segundo, pela possibilidade de a gente continuar produzindo ou, pelo menos, elaborando novo conteúdo a partir daquilo que já tínhamos registrado, em um momento que desaconselha fortemente o garimpo de novas histórias”, conclui.

Para Thiago, que nesse período pandêmico deu início a uma produtora (a Enseada Produções Culturais) em parceria com Cezinha Silva, o podcast pode, quem sabe, render a tão desejada aprovação no Elisabete Anderle, edital de fomento da Fundação Catarinense de Cultura (FCC), em cujas duas últimas edições o Retratos bateu na trave. Com um edital de incentivo em âmbito municipal obtido em 2016 na conta, o que possibilitou a elaboração do site, o projeto, que já soma cinco anos e meio de existência, busca novas formas de subsídio para continuar registrando a historiografia portobelense: “Seria um desdobramento inesperado, mas bem-vindo”, acredita o jornalista.

A nova temporada do podcast vai ao ar a partir desta quarta-feira, 7 de julho. Os episódios são transmitidos em aplicativos como Spotify, SoundCloud, Anchor e também no canal do projeto no YouTube. Siga a fanpage no Facebook e o canal no Instagram para saber as novidades do Retratos de Porto Belo.

Alcides, Thiago e Isa (com dona Maria Célia Silva, em entrevista realizada em 2019): ansiedade pela retomada

 

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