Tarde de sexta-feira. Apesar do calor característico do mês de fevereiro, não há muito trânsito na Governador Celso Ramos. A relativa tranquilidade contrasta com o que se viu ao longo deste verão: filas de veículos subindo e descendo o morro de Bombas e um interminável rolar lento de pneus sobre o asfalto quente e maltratado da avenida principal de Porto Belo.

Dona Cissa já não se abala com a ruidosa rotina do período. Ela e o marido nos recebem na pequena varanda nos fundos de sua casa, no número 1038 da avenida. Fica praticamente defronte ao acesso ao bairro Araçá. No amplo terreno está reunido todo o clã de dona Delcides Serpa de Jesus, 86, e seu Inácio Mário de Jesus, 91: ao lado, num sobrado amarelo-vivo com um enorme escudo do Vasco pintado na parede lateral, vive o filho Sandro; outro filho, Marinho, mora nos fundos; Assis, o mais velho, reside com os pais, enquanto Ângela e a filha ficam ali perto, e mais Aldori e Denise, a caçula. Crianças correm pelo quintal compartilhado.

“Aqui tem um condomínio”, brinca dona Cissa. Ela está sentada num pequeno banco de jardim. Sua perna direita apoia-se na mureta ao lado, sobre uma almofada. Deixou-a nessa posição incômoda porque sofreu um machucado na canela. A ferida sangra um pouco. Ao seu lado está o esposo. Seu Mário exibe na pele clara o preço de anos de exposição severa ao sol: no início da semana, cumpriu com a rotina de visitar o médico que acompanha e previne o progresso de suas lesões. Com enevoados olhos azuis, ele parece estar alheio à conversa. Preocupa-se mais em garantir que o sol não esquente a água do cãozinho que agita-se aos seus pés. Ocasionalmente, ele se levanta e puxa o pote novamente para a sombra.

A esposa, por outro lado, é falante e vivaz. Com disposição, vai desfiando a trama de um tempo que não conhecia filas, carros nem asfalto, quando a terra onde estamos ainda pertencia aos seus avós paternos e havia um alambique nos fundos da propriedade, junto ao pé do morro – um rancho marca o local no qual ficava a velha destilaria.

Nesse tempo distante, a paisagem em volta era dominada por pastagens e uma dúzia de moradores compunha a demografia do que hoje chamamos Enseada Encantada. Cissa os tem na ponta da memória, começando por Zé João, com seus engenhos de farinha e cana, seu Chico Duarte, cuja casa foi erguida por escravos, passando por Idalina, dona da melhor propriedade da área, vendida em 1974 para a construção da unidade de processamento da empresa florianopolitana Pioneira da Costa, maior indústria da cidade e atualmente em processo de recuperação judicial; seguindo pelas moradas dos tios Vicente e Abílio até chegar à última daquela orla, pertencente a seu Leopoldo. Entre esta e aquelas havia ainda, empoleirada um pouco acima da estrada, a casa de seus avós maternos, vindos de Santa Luzia.


[…] O cafezal da família ficava no alto do morro, e de lá a vista abraçava Bombinhas inteira.


Delcides não conheceu o pai do seu pai, que morreu quando Gumercindo Cipriano Serpa ainda era solteiro, legando a este o dever de cuidar da mãe e dos irmãos menores. Mais tarde, ele uniu-se a Maria Cristina de Barros. Primogênita do casal, Cissa nasceu em 1931. Até os doze anos, foi filha única, significando que cabia a ela auxiliar seu Gumercindo na lavoura. O cafezal da família ficava no alto do morro, e de lá a vista abraçava Bombinhas inteira.

“Era muito difícil”, repete mais de uma vez dona Cissa, enquanto revisa na lembrança a rotina da época, quase inteiramente voltada ao cultivo do solo – na roça dos pais ou na de vizinhos –, colhendo café “de alugada”, plantando mandioca, farinhando e forneando. O estudo era pouco, visto que a escola existente oferecia apenas três anos de lições. Assim, a única variação possível era proporcionada pela pesca, feita com redes de arrasto, que seu Mário praticou bastante antes de seguir para Santos – razão pela qual, julga a esposa, sofre hoje com o câncer de pele.

Um arrasto bem-sucedido representava trabalho extra na salga de Mané Paulina, no Araçá. Como não havia quem comprasse os peixes, toda a captura precisava ser “consertada”, temperada em sal e posta para secar ao sol, uma tarefa ingrata que durava dias e resultava em estafa e mãos em carne viva.

Com o tempo, começaram a surgir compradores, interessados principalmente nas sardinhas que se pescava do lado de lá do morro. Essa procura gerou um comércio para seu Gumercindo, uma vez que os carroceiros fretavam sua junta de bois para trazer os peixes de Bombas (antes disso, o excedente costumava ser enterrado na areia da praia).

Embora houvesse muito a se fazer, emprego mesmo não existia. Isso mudou quando começaram a aparecer os barcos de pesca industrial, arrebatando os moços com a perspectiva de ganhar dinheiro pescando no litoral santista. Mário ouviu o canto da sereia e partiu para lá.

Filho de Maria Claudina de Jesus, seu Mário foi criado por Pedro Sabino (seu pai, na verdade, era Mané Paulina, que não o assumiu. Divertida, dona Cissa procura, sem sucesso, a palavra para descrever a situação, que ela aprendeu numa novela – “bastardo” é o que quer dizer). O padrasto era dono de grande extensão de terras na praia do Estaleiro, em Araçá. Proprietário de engenho e de algumas cabeças de gado, produzia todo o necessário para o consumo em sua lavoura: feijão, café, farinha, amendoim, banana e melancia. “Eram terras muito boas”, atesta dona Cissa, que conhecia a região muito bem, pois, como ela mesma diz, “não saía do Araçá”.


[…] Embora houvesse muito a se fazer, emprego mesmo não existia. Isso mudou quando começaram a aparecer os barcos de pesca industrial.


Com tanta familiaridade, fica difícil para ela estabelecer um marco no relacionamento dos dois. Conheciam-se desde sempre, pois era comum Cissa ir trabalhar no cafezal de Sabino. Também era normal que fosse com as outras moças distrair-se nas domingueiras na casa de seu Zé Vinicius. Tudo muito respeitoso, é bom que se diga (“não é como hoje, que é uma pouca-vergonha!”). Casaram-se em 1951. Ela tinha vinte anos de idade.

Antes disso, aos dezesseis, Mário tirou carteira de pescador e tocou-se para Santos. Corria o ano de 1941 e o famoso porto resumia-se a meia dúzia de casas à beira do cais, uma linha de trem e muito mato. Não encontrou vaga em nenhuma tripulação (“naquele tempo não tinha barco, só uns ‘caiquinhos’”) nem os quatro colegas que presumivelmente esperariam por ele. Soube que tinham ido procurar emprego em algum sítio da região, por isso embarcou numa lancha em Vila Macuco, no estuário de Santos, e seguiu para os bananais que havia além de Bertioga. “Trabalhei três meses lá”, conta o nonagenário com entusiasmo, após ser retirado da apatia pela filha Ângela, que o incentiva a “responder umas perguntas” da reportagem.

Quase oitenta anos depois, seu Inácio parece não ter esquecido nenhum detalhe: as quinze horas de viagem, de chegar ao destino debaixo de temporal e ouvir a balbúrdia dos outros empregados, “tudo nortista”. Como demonstrasse receio de ficar junto desse pessoal, recebeu tratamento especial do patrão, ganhando alojamento na casa da fazenda. Também almoçava em separado do resto da peonada.

Passados três meses, fez nova tentativa de arranjar uma embarcação. Acabou, entretanto, em outro sítio, este de propriedade de um português. Os demais empregados eram apenas um caiçara e um espanhol. Mas não ficou muito tempo no novo emprego, conseguindo trabalho em um bote que transportava peixe de São Sebastião para Santos. Ficou dois meses nessa lida, até finalmente obter vaga em uma traineira.

Embora sequer passasse “um café para minha velha” em terra, seu Mário enveredou pela cozinha. Tornou-se o responsável pela alimentação da tripulação das parelhas onde trabalhou. Uma função que exigiu poder de adaptação, pois a tecnologia envolvida estava em constante evolução: começou manipulando fogão a lenha, depois veio o carvão, a querosene e, enfim, o fogão a gás. Foram 25 anos como cozinheiro, período durante o qual não deixou faltar comida (orgulha-se de os companheiros jamais terem lhe assaltado a despensa), mas impunha uma disciplina rígida, pois não gostava que bagunçassem o seu pedaço. “Cozinha minha era bem limpinha”, garante.


[…] Foram 25 anos como cozinheiro, período durante o qual não deixou faltar comida, mas impunha uma disciplina rígida: “Cozinha minha era bem limpinha”.


A rotina de cozinheiro não era mais suave que a dos demais tripulantes. Mário levantava às 3h, ligava seu radinho para ouvir música caipira e já começava a manejar as panelas. Às 11h, o rango estava pronto. Às 14h saía o café e, às 16h, o jantar. Este coincidia com o primeiro lance de rede, que era puxada às 22h, momento em que havia uma panela de mingau à espera do pessoal. À meia-noite, quando ocorria o segundo lance, era preciso estar de pé novamente para preparar mais café.

Enquanto Mário se virava com o menu do dia, Cissa rezava. Temia pelo marido em alto-mar e perdia o sono em noites de tempestade. Depois que casou, sua vida pouco mudou. Ficou um tempo albergada na casa do sogro, em seguida mudou-se para a “Segunda Praia”, onde fica o cais do Araçá, e retornou para a propriedade dos avós. Continuou carregando lenha, torrando café, fazendo sabão e lavando roupa na fonte. A diferença é que agora tinha os filhos para criar. A seu tempo, Marinho, Aldori e Assis também embarcaram, aumentando sua apreensão.

O marido aposentou-se no final dos anos 1960, mas continuou trabalhando. Adquiriu um bote e fazia a vigia das parelhas e camaroeiros que fundeavam ao largo da Enseada. Era um trabalho que exigia passar a noite na embarcação, olhar atento e paciência com alguns tripulantes, que perdiam a hora nos bares e exigiam subir a bordo fora do horário determinado. Mas Mário era inflexível.

Passou-se mais uma década. Perto dos oitenta, largou de vez o mar. Porém, não estava ainda pronto para sossegar e por isso percorria a praia juntando latas de cerveja para vender a empresas de reciclagem. Tudo ia bem, sentia-se disposto, até que apareceram alguns caroços pelo corpo. Uma consulta confirmou o câncer de pele. O tratamento exigiu a cauterização das lesões e algumas incisões – um pedaço da orelha direita foi tirado e um corte mais profundo requereu enxerto. “Me deixou em tira”, explica seu Mário, sem porém deixar de elogiar o médico que o trata já faz seis anos. “Tô indo por causa dele, senão tinha morrido há muito tempo”, acredita.

É provável que não. Apesar da idade avançada e do mapa de cicatrizes vermelhas pelo corpo, o velho cozinheiro parece bem. Tem a memória afiada e fala com segurança, disputando com dona Cissa a condução da narrativa. Revive o passado com um sorriso emoldurado pelo ralo bigode branco. É certo que padece da velhice, mas essa é uma circunstância da vida. Sua senhora, por seu turno, demonstra maior vitalidade. Claro que as pernas enfraqueceram e ela há muito deixou de subir o morro para cultivar a terra, coisa que fazia com prazer. Porém, ainda levanta cedo para cuidar da casa e não adoece facilmente.

Numa divagação sobre o tempo presente e o passado, ela pondera que muita coisa melhorou. No sentido material, principalmente, pois viveu dias de pobreza e valoriza tudo o que conquistou. Elogia o companheirismo do marido, mesmo que ele não estivesse presente nos momentos mais dramáticos, como quando duas de suas filhas morreram com poucos meses de idade. Todavia, para uma esposa de pescador, a vida é assim, cheia de ausências.

No que concerne aos costumes, dona Cissa prefere os anos da mocidade: “Tinha respeito, havia amor pelos outros, os filhos não abandonavam os pais, a gente conhecia todo mundo”, compara. O tempo, entretanto, é inescapável. Os melhores anos ficam para trás e não se sabe o que há pela frente. Dona Cissa e seu Mário apenas esperam, pois tudo está no seu lugar.

(*) Entrevista concedida em 17 de fevereiro de 2017.

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