Faz muito tempo que um certo Marco Aurélio Raymundo esteve em Puerto Madryn, pequeno balneário 1.400 quilômetros ao sul de Buenos Aires, bem no início da Patagônia argentina. Não foi atrás de ondas (era surfista, além de médico), mas para tratar de negócios. Seu objetivo: conhecer um italiano que fazia roupas de borracha para mergulhar nas águas frias daquela região. Morongo (apelido do visitante) propôs ao sujeito uma sociedade. O italiano concordou e um tempo depois começaram a trabalhar. Mas surgiram divergências quanto ao rumo a tomar: o brasileiro queria direcionar a produção para o surfe, sua especialidade, enquanto que o outro preferia seguir focando no mergulho. Assim, separaram-se. O primeiro abriu uma fábrica em Garopaba, no litoral sul de Santa Catarina, e mais tarde a transformou numa marca conhecida mundialmente — a Mormaii.

Giuseppe Nicoletti, o italiano, depois de andar pelo Rio Grande do Sul, deslocou-se para Bombinhas, no norte catarinense, um paraíso do mergulho. Instalou-se em seguida em Porto Belo, onde vive há quase trinta anos. Continuou produzindo roupas de borracha, repetindo a trajetória pioneira que iniciou no frio patagônico e conduziu no Chile e Venezuela. Sua marca vende artigos para o Brasil e para a Argentina. Aos 90 anos de idade, seu Pino, como ficou conhecido, já não está mais à frente dos negócios. Porém, ainda não vestiu o pijama nem as chinelas. Tem uma vitalidade incomum para quem soma tantas décadas: caminha com agilidade e corpo ereto e mantém o olhar arguto. E participa de um grupo de remadores que conduz uma canoa polinésia pela baía de Porto Belo.

O vigor talvez seja em razão de uma receita materna. Quando garotos, ele e o irmão Bruno Nicoletti passavam as férias na Ístria, região que já foi italiana e atualmente pertence à Croácia. Lá vivia a família de sua mãe, Virginia Tamburlini. Iam à praia e, no caminho, havia uma salina. Virginia aproveitava para cobrir o corpo dos garotos com a água extremamente salgada do lugar. Acreditava, com isso, imunizá-los. Coincidência ou não, numa família onde muitos morreram de câncer, Pino e Bruno, este aos 86 anos, seguiram firmes e fortes. Tanto que, em 2002, navegaram em volta do globo num catamarã de 16 metros. Fizeram a viagem de quatro meses sozinhos e sem escalas. “Acredito que era a tripulação mais velha do mundo”, brinca o idoso.


“Acredito que era a tripulação mais velha do mundo”


Virginia conheceu Antonio Nicoletti em 1918, no fim da 1ª Guerra Mundial. Ele fazia parte da força italiana que ocupou as regiões de Trento e Trieste, então sob domínio do Império Austro-húngaro. Casaram-se e se estabeleceram em Veneza, onde os pais de Nicoletti viviam. Maria Finozzi, a mãe dele, tinha uma loja de artigos femininos no centro da cidade. Vendia casacos de pele e chapéus — muitos dos quais enfeitados com penas de beija-flores importados do Brasil.

Giuseppino nasceu em 18 de março de 1927. Cresceu no tenso período que antecedeu o segundo conflito mundial. Sob a tutela do duce Benito Mussolini, a Itália deu início a um projeto de expansão colonial ocupando a Abissínia (atual Etiópia) em 1935, ampliando seus domínios na África Oriental. Quando eclodiu a guerra na Europa, em setembro de 1939, se alinhou aos alemães e aos japoneses. Em outubro de 1940, atacou a Grécia.

2ª GUERRA MUNDIAL

No final de 1943, Giuseppe se alistou na Marinha. Fez a escola naval e, em maio de 1945, foi incorporado ao Grupo Gamma, o famoso corpo de mergulhadores especializado em missões de sabotagem. Serviu sob o comando de Luigi Ferraro, um condecorado herói de guerra e pioneiro criador dos modernos equipamentos de mergulho. Era também uma espécie de 007: durante o dia, fingia-se de funcionário do consulado italiano na Turquia; à noite, realizava operações de sabotagem contra navios mercantes nos portos de Iskenderun e Mersin. Usava o uniforme de oficial sob a roupa de mergulho para evitar ser sumariamente executado, caso fosse descoberto.

Pino não chegou a participar das ações dos Gamma, pois àquela altura os navios ingleses e norte-americanos já haviam desenvolvido um antídoto: lançavam bombas de profundidade para prevenir a ação dos perigosos homens-rã. Assim, foi destacado para lutar em Trnovo, na atual Eslovênia, contra o avanço dos partisans iugoslavos. Ao final, sob o comando do marechal Tito, os guerrilheiros comunistas ocuparam o extremo nordeste da Itália e promoveram uma campanha de expurgo e assassinato dos cidadãos que viviam em Trieste, na Ístria e Dalmácia. Entre 5 mil e 17 mil pessoas foram mortas no chamado “Massacre das Foibe”, numa referência às enormes cavidades que existem no solo daquela região: opositores eram amarrados e atirados para morrer naqueles buracos. Em 2004, o governo italiano instituiu o dia 10 de fevereiro como o “Dia da Lembrança” para marcar o episódio, que completou 70 anos.


“Naquele tempo, não havia antibióticos, morria gente como moscas”


Como muitos compatriotas, Giuseppe reclama que seu país deveria ter imposto uma resistência mais firme aos planos de Tito: “Podiam ter negociado, mas se sentiam derrotados”, avalia. Como resultado, a Ístria da sua infância acabou ficando do lado de lá da fronteira a última vez que a visitou, constatou com amargura que os lugares queridos foram rebatizados com nomes eslavos.

Ao fim da guerra, Pino caiu enfermo. Até ali, teve sorte: dos seis colegas que ingressaram com ele na escola naval, quatro morreram em combate. Ele mesmo escapou de ser pulverizado num bombardeio em Pádua, mas a tuberculose poderia ter êxito onde balas e bombas falharam. “Naquele tempo, não havia antibióticos, morria gente como moscas”. Foi internado num sanatório em Lago de Garda, no norte do país, e melhorou. Para se restabelecer plenamente, passou uma temporada em Tenerife, nas Ilhas Canárias, num repouso patrocinado pelo irmão.

AMÉRICA DO SUL

Quatro anos mais novo, Bruno não lutou na guerra. Porém, viveu a sua cota de aventuras. Antes que o mundo virasse de ponta-cabeça, o garoto havia descoberto num sebo uma edição do livro Viagem de um naturalista ao redor do mundo, que relata a passagem de Charles Darwin pela Patagônia. Ficou obcecado. Em 1946, aos quinze anos de idade, embarcou clandestinamente no navio Andrea Gritti com destino a Buenos Aires. Descoberto no porto argentino, em vez de ser deportado, serviu como garoto-propaganda de Juan Domingo Perón. Como o presidente queria atrair imigrantes europeus, fez de Bruno um exemplo de como eles seriam bem tratados em seu país. Evita Perón, a primeira-dama argentina, posava para os jornalistas oferecendo cafezinho ao aturdido italiano.

Bruno tomou gosto pela navegação. Subiu o Rio Paraná até Assunção, no Paraguai, e embarcou como foguista de um vapor grego, o SS Adrios, que mais tarde afundaria na costa de Peniche, em Portugal. “Os portugueses o utilizam agora como treino para fazer apneia”, destaca Pino, demonstrando como o mergulho esteve sempre presente na trajetória dos irmãos.

Depois de alguns anos viajando pelos mares do mundo, Bruno largou a navegação e se fixou em Esquel, distante cerca de 280 quilômetros de Bariloche. Recuperado da tuberculose, em 1949 Pino viajou para se juntar a ele na América. Como gostassem de cavalos, arranjaram emprego numa fazenda. Giuseppe fazia as vezes de veterinário e Bruno lidava com as ovelhas.

Em 1951, Perón anunciou ao mundo que daria início a um programa nacional de energia atômica. Seduzido por um físico austríaco chamado Ronald Richter, o mandatário criou a Comisión Argentina de Energía Atómica e investiu pesado na construção de um reator para a fusão nuclear na ilha Huemul, situada no lago Nahuel Huapi, na costa de Bariloche. Como haveria trabalho no canteiro de obras, os irmãos Nicoletti seguiram para lá.

Todavia, não demorou a ficar provado que Richter era um físico de araque. Numa inspeção ao complexo de Huemul, uma comissão de engenheiros suspeitou de seus atributos técnicos. Nos laudos apresentados, os peritos concluíram que o austríaco — homenageado pelo presidente com a Medalha Peronista — demonstrava “um desconhecimento surpreendente sobre o tema”.

Com o fiasco do projeto, os Nicoletti ficaram sem trabalho. Bruno já era pai e eles precisavam urgentemente ganhar a vida. Pino resolveu tentar a sorte nas minas de carvão de Río Turbio, uma pequena cidade ao sul da Patagônia. Pegou os dois cavalos que possuíam, mais um cachorro, e iniciou a viagem de 1.600 quilômetros até o destino. Levou quatro meses para chegar.

VISONS NA CORDILHEIRA

Depois que se estabeleceu, ele ganhou a companhia do irmão e, em seguida, dos pais. Antonio, que era sócio de uma fábrica de móveis finos e durante o conflito confeccionou trenós para os alemães usarem na frente russa, desmanchou a sociedade no pós-guerra, pegou sua parte do dinheiro e investiu em projetos que não deram certo. Com o insucesso, ele e a esposa resolveram trilhar o caminho dos filhos. Pino foi até a Itália e os ajudou a acomodar os pertences em baús e, juntos, embarcaram para a Argentina.

Em Río Turbio, Antonio retomou um antigo hobby: fotografar. O passatempo se tornou profissão quando o fotógrafo oficial da mineração adoeceu e o italiano assumiu o posto, faturando um bom dinheiro fazendo fotos de registro dos empregados.

Mas a vida naquelas paragens desoladas não era fácil. O clima hostil atormentava a saúde frágil da filha mais nova de Bruno, o que fez com que ele se deslocasse para uma região de clima menos severo 1.450 quilômetros a nordeste. Pino, por sua vez, conheceu Jules Rossi, um egresso da marinha francesa e amigo do explorador Jacques Cousteau que estava a caminho do mesmo destino. Assim, em 1956, toda a família Nicoletti seguiu para Puerto Madryn.

Na cidade à beira do Golfo Nuevo, Jules Rossi e Giuseppino iniciaram uma criação de visons americanos, pequenos mamíferos mustelídeos (da família das lontras e das doninhas) usados na fabricação de casacos de pele. O negócio era bastante rentável, mas havia um porém: o vison é um carnívoro voraz. Certa ocasião, um javali invadiu o cercado dos bichos e quebrou algumas gaiolas. Os visons fugiram e rapidamente se espalharam pelas redondezas, devorando galinhas e ovos de aves silvestres, além de peixes. Acidentes semelhantes aconteceram em outros criadouros e, com a perda do valor comercial, muitos visons foram simplesmente soltos na Patagônia, convertendo-se em praga. Até hoje causam tremendo dano ao ecossistema da região.

Paralelo ao negócio com os visons, Jules introduziu a prática do mergulho e da caça submarina em Puerto Madryn. Contou, naturalmente, com a colaboração dos irmãos Bruno e Giuseppe (a essas alturas, “José”, como ficou registrado em seus documentos de cidadão argentino). O problema é que o mar do golfo é gelado e não havia muito recurso. Caía-se na água em pelo ou passava-se uma camada de lanolina (gordura extraída da lã de ovelha) pelo corpo, ou então usava-se um pulôver à guisa de roupa subaquática — completando os procedimentos com uma fogueira para espantar o frio após o mergulho. Ainda assim, era tarefa para abnegados: “Meu irmão pegou não sei quantas pneumonias”, diz.

Mas os Nicoletti tinham seus contatos. Especialmente em sua terra natal, onde a Cressi, uma das primeiras empresas do mundo a comercializar equipamentos de mergulho, estava testando uma roupa de borracha sintética derivada do policloropreno — que se popularizaria sob o nome de neoprene.


“Meu irmão pegou não sei quantas pneumonias”


Criado pelos cientistas da empresa norte-americana DuPont nos anos 1930, o neoprene foi usado como isolante térmico em roupas de mergulho pela primeira vez em 1951. O responsável foi Hugh Bradner, um físico que trabalhou no Projeto Manhattan (que resultou nas bombas de Hiroshima e Nagasaki) e depois foi professor da Universidade da Califórnia. Preocupado em solucionar o problema dos mergulhadores da marinha norte-americana ao enfrentar as baixas temperaturas dos oceanos, ele descobriu que o neoprene retém uma camada de água e não deixa que ela tenha contato com o exterior. Essa camada esquenta em contato com a pele e deixa o corpo do mergulhador aquecido. “É como ficar numa banheira quente”, resume Pino.

Hugh não teve sucesso em patentear sua descoberta, cuja autoria acabou sendo requisitada no ano seguinte pelos irmãos Bob e Bill Meistrell, fundadores da marca de surfe Body Glove, e por Jack O’Neill, da também conhecida marca O’Neill. Mas, ficou provado que Hugh Bradner foi, de fato, o “pai do wetsuit — como é chamada lá fora a roupa de borracha.

PIONEIRO

Quando soube da novidade, Pino estava trabalhando como mergulhador de uma empresa italiana de gasodutos. Recebia um bom ordenado, que aplicou na construção de uma fábrica para confeccionar as primeiras roupas de borracha em solo argentino, além de pés de pato e outros produtos relacionados ao mergulho.

Com o apoio do irmão, o negócio evoluiu. Em parceria com Jorge Pérez, um empresário de Buenos Aires, eles fundaram La Casa del Buceador (A Casa do Mergulhador), talvez a mais importante loja de produtos de mergulho do país. Atualmente, a empresa conta com matriz na capital argentina e uma filial em Puerto Madryn, ambas geridas pelo filho de Bruno, Patricio.

Em 1966, Pino estava a pleno vapor com a sua confecção de wetsuits quando ocorreu um campeonato sul-americano de pesca submarina (José, que se tornou assíduo nesse esporte, prefere o verbo “caça”, pois acha o nome que usam agora um eufemismo ridículo) realizado na ilha Robinson Crusoé, na costa chilena. Atraído para lá, fez contato com empresários e intuiu a possibilidade de bons negócios no país. Mantendo a parceria com a italiana Cressi, importou máscaras, pés de pato e costurou a primeira roupa de neoprene do Chile, numa fábrica construída no porto de Coquimbo. Depois de um tempo, desavenças entre os sócios interferiram no projeto e ele desistiu: “São muito briguentos, os chilenos”.

Dali, seguiu para Caracas, na Venezuela, onde novamente foi pioneiro na introdução da roupa de neoprene. Na época, já estava casado. Sua esposa era a espanhola Luiza Martín-Toledano, que ele conhecera no Paraguai. Casaram-se em 1964 e viveram juntos durante treze anos, até que um acidente automobilístico vitimou Luiza.

Assim que ficou viúvo, José Nicoletti decidiu tirar férias no Brasil. Mas não era uma viagem puramente recreativa: seu destino foi Garopaba, onde planejava se encontrar com Morongo.

Em nenhuma das vezes em que o criador da Mormaii falou sobre o passado da marca ele menciona Giuseppe. Afirma apenas que começou a costurar suas roupas de borracha na garagem de casa na década de 1970, junto com a então esposa Maira (Mormaii é uma junção do apelido dele com o nome dela; o “i” a mais é em alusão ao Hawaii).


“Era distinta a forma de ver as coisas entre eu e Morongo”


O italiano explica que, quando Morongo esteve em Puerto Madryn, trouxe de lá um molde de costura da roupa de borracha que era fabricada por ele. E, a partir daí, Pino enviava ao brasileiro rolos de neoprene importados dos Estados Unidos, que chegavam às mãos de Morongo através do pai deste, proprietário de uma companhia de turismo em Porto Alegre. Como seus ônibus viajavam constantemente à Argentina, traziam o material escondido sob a bagagem dos turistas.

— Ele me propôs fazer uma sociedade, mas era distinta a forma de ver as coisas entre eu e ele. Então, cada um foi para o seu lado.

PORTO BELO

No Brasil, Pino casou-se pela segunda vez, com a gaúcha Valeria Marins Pinto, trinta anos mais jovem (ele estava com 50) e com quem teve a primeira filha. Na época, em 1978, estava em Porto Alegre, onde passou a se dedicar a outro produto confeccionado com neoprene: as botas para mergulho. O casamento durou até 1998 e rendeu um segundo filho, batizado Giuseppe por desejo de Valeria: a ex-esposa achava que o nome tinha algo de nobre, quando na verdade era tipicamente camponês. “[É um nome] dos mais ordinários”, confidenciou Pino, aos risos.

No início dos anos 1980, Pino desembarcou em Bombinhas. Antevendo no balneário uma boa praça para o desenvolvimento de seus produtos, começou a procura por um local para implantar a nova fábrica. Achou o que queria, porém, em Porto Belo, onde o preço dos imóveis era muito mais atrativo. Adquiriu dois terrenos no bairro Perequê, na esquina das atuais ruas João Camilo e Arlindo Mangolt, cerca de 1,5 quilômetro do acesso à BR-101. Construiu um prédio de três andares com um amplo pé-direito para abrigar as máquinas e ameias nas sacadas. O curioso detalhe arquitetônico foi sugestão do enteado, filho de sua atual esposa, Gertrudes Nicoletti, e fã do período medieval. Desde então, esse “castelo” é a sede da Pino Professional Diving Wear.

Ainda que esteja aposentado (Giuseppe, o filho, é quem agora cuida dos negócios), seu Pino continua auxiliando na modelagem das roupas. Também ajuda a testar a funcionalidade dos modelos, pois ainda mergulha. Galinhos, no Rio Grande do Norte, é um destino que ele e Bruno (eles têm outro irmão, Giorgio, um professor aposentado que ainda mora na Itália) visitam com frequência. Nessa praia no litoral norte-potiguar eles pescam e experimentam as novidades da marca.

Bruno vive na Patagônia, onde cria cavalos árabes. Em 2002, ele realizou seu grande sonho de navegante: cruzar os cabos Horn, Leeuwin e das Agulhas e dar a volta ao mundo sem pisar num cais que não fosse o porto de onde partiu. O êxito aconteceu depois de dois reveses: na primeira tentativa, o choque com uma baleia danificou o leme do “Brumas Patagonia” e ele teve que desistir; na segunda, acompanhando um sujeito que queria escrever sobre o famoso navegador argentino Vito Dumas, enfrentou uma sequência de tempestades terríveis e precisou fazer escalas na Nova Zelândia e no Chile. Por fim, a bordo de um catamarã de primeira linha, eleito o barco do ano no salão náutico de Miami em 2000, Bruno estava preparado para a terceira tentativa. O problema é que sua tripulação esvaziou no momento da partida. Pino, então, disse: “Bueno, eu te acompanho”. Quando o controlador do serviço que monitora a atividade dos veleiros de língua espanhola na rota das Ilhas Canárias soube da idade dos dois tripulantes, quase morreu de rir.

Mesmo assim, salvo por alguns incidentes — como um choque sem maiores consequências com uma baleia jubarte no Índico (“sem maiores consequências” para o barco, já que as águas ficaram vermelhas com o sangue da jubarte) e uma tempestade que danificou o sistema elétrico do catamarã, deixando-os sem água potável e aquecimento — os intrépidos Nicoletti conseguiram completar a façanha, após quatro meses em alto-mar e sem tomar banho um dia sequer.

Estoy mui faladero”, observa seu Pino ante o pasmo dos repórteres, depois de quase duas horas ouvindo o relato impressionante de suas aventuras. Dias depois, estalando os dedos para começar a redigir este artigo, uma imagem um tanto estranha veio à mente: Forrest Gump. Obviamente, não em razão do que o inesquecível personagem de Tom Hanks tivesse de simplório, mas porque viveu situações tão incomuns que seus interlocutores sentiram dificuldade em acreditar.

Ainda assim, não é essa a razão da comparação, e sim porque Pino e Bruno — não dá para dissociar um do outro — estiveram, de certo modo, no centro de grandes acontecimentos do último século. Tito, Mussolini, Perón são alguns dos “coadjuvantes” dessa saga familiar, que ganhou um epílogo nada grandiloquente num castelo nos fundos de um bairro de Porto Belo, onde seu Pino vive tranquilamente cultivando seus legumes orgânicos, ainda que sobressaltado pela velocidade como a paisagem muda à sua volta, com a Meia Praia impondo a sua feição ao Perequê. “Pra mim, realmente é uma surpresa”, admite. Depois de tudo que conheceu, é este pequeno município em rápida mutação que consegue surpreender seu Giuseppe Nicoletti.

(*) Entrevista concedida em 03 de junho de 2017.

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