Samuel Valdemar da Silva viu muita coisa nesta vida. Como pescador, singrou marés; como caminhoneiro, percorreu distâncias. Conheceu cidades e testemunhou maravilhas, por isso lamenta que não tivesse à mão uma câmera fotográfica para registrar. A memória é a única salvaguarda de suas viagens e aventuras, mas ela já não é tão confiável, confunde-se às vezes; repete-se. O mesmo ocorre com os braços: ele, que já foi chamado de “Guincho” pela capacidade de mover equipamento pesado em seu estaleiro, depois que sofreu uma hemorragia mal diagnosticada (disseram que era sinusite) sentiu o vigor sumir. “Perdi a força”.

Talvez haja um pouco de exagero na primeira afirmação, pois seu Samuel consegue reconstituir em detalhes a Santa Luzia da sua infância. Nascido na Rua da Volta em 4/4/1954 (“uma data bem bonita”), ele conta que o bairro pesqueiro possuía à época de sua meninice uma boa infraestrutura comercial, ainda que houvesse apenas uma dúzia de casas na então Ponta da Enseada: tinha padaria, farmácia, sapataria, salga e até posto de gasolina — sem contar os engenhos de farinha. “Muita gente não conhece o que foi a Santa Luzia antes”, observa, apontando em direção ao morro que quase faz sombra à sua propriedade: “Tinha um poço d’água naquela subidinha, a mulherada ia lavar a roupa lá”. Bem-humorado, quase toda frase sua é pontuada por uma risada.

Foi, portanto, entre risos, que ficamos sabendo de sua história.

No dia em que ele nasceu, um dilúvio precipitou-se sobre a região, nem carroça transpunha a enchente, por isso teve que vir ao mundo pelas mãos de dona Bilica, parteira que viveu até há pouco tempo, chegando aos 108 anos de idade. Foi o sétimo filho de Valdemar Belmiro e Antônia Maria da Silva (que teriam quatorze, um deles adotado). Proveniente de Zimbros, seu pai começou a vida em Santa Luzia como lavrador, mas passou a pescador, carpinteiro e comerciante — tudo quase ao mesmo tempo. Um de seus empreendimentos mais notórios foi um salão de baile que trazia uma proposta ousada para a época: juntar brancos e pretos.

Valdemar precisou se impor num bairro onde os negros não eram muitos, nem bem-vindos. Mesmo no outro lado da Costeira — de onde ele veio e aonde sempre ia para buscar peixes — corria o risco de ter a carroça jogada numa vala, punição que os locais aplicavam aos pretos que ousassem aparecer naquelas bandas. Mas o velho era enérgico e não levava desaforo para casa. Aos poucos, pelo caráter e pela força do seu trabalho, angariou o respeito dos demais.

Apreciador de vanerão, Valdemar se pôs a construir não um, mas dois salões: o “Panela Velha” e o “Cachoeirinha” — aventura que quase terminou mal, quando uma parede caiu sobre ele durante as obras. Até então, havia o “Capim Gordura”, na Rua da Volta, e o salão de Mitério Tibúrcio, na beira do rio, que um senhor conhecido como Camilinho gerenciava. Nestes, só brancos dançavam. Os pretos divertiam-se no “Treze de Maio”, em Tijucas. Os “salões de misturados” do pai de Samuel acabaram com esse apartheid, mas não sem antes provocar muita briga.

A família desse desafiador de tabus morou na Rua da Volta até 1967. O nome atual dela é Sebastião Coelho (embora os moradores prefiram usar o antigo) e, até algumas décadas atrás, era uma aprazível estrada de chão em meio ao verde, cujo trajeto de um quilômetro termina nas ruínas de uma antiga casa senhorial (conhecida como “Casa Branca”). Hoje, a maior parte do caminho é pavimentada com lajotas e a densidade demográfica aumentou muito, ainda que seja ladeado por grandes extensões de pastagem, visíveis a partir da estrada que liga Santa Luzia ao centro de Porto Belo.


“Muita gente não conhece o que foi a Santa Luzia antes”


Quase no fim da rua, ao lado de um córrego, funciona um restaurante do tipo “pesque & pague”. Por um curto tempo, o empreendimento também fez as vezes de parque aquático (os tobogãs ainda estão por lá). No morro atrás da propriedade, a sobreposição de pedras e raízes formou cavernas, no interior das quais é possível a um homem se esgueirar. Samuel viveu até os treze anos de idade nas imediações dessa propriedade — e foi ali que começaram as suas aventuras.

Uma bem típica era a descida de carretão, versão rústica dos conhecidos rolimãs. As rodas de madeira dos carrinhos eram surrupiadas de uma “tafona” (engenho de moer grãos — no caso, milho) que havia nas redondezas, o que rendia uma surra sempre que Valdemar recebia queixa do delito (depois, o dono da moenda aderiu à brincadeira, o que legalizou o procedimento e economizou pancadas).

Descer ladeiras de carretão foi um passatempo popular da criançada de Porto Belo até meados dos anos 1980, especialmente na acidentada descida do morro de Zimbros. Com o aumento do tráfego de veranistas no período de férias, acabou se tornando inviável. Mas, mesmo antes da ameaça dos veículos, podia ser bastante perigoso.

No início, a pista que Samuel e os amigos desciam na Rua da Volta era apenas uma reta, que terminava num barranco coberto de capim-gordura. Saulo, o irmão mais velho, acrescentou algumas curvas para aumentar o grau de dificuldade e deixar a brincadeira mais emocionante. Numa das vezes em que desceu, Samuel perdeu o controle e bateu feio. Teve um ferimento na perna que cortou até o osso. A ferida o incomodou durante quase vinte anos.

Depois de algumas mudanças de endereço, seus pais se estabeleceram onde ele atualmente vive, na João Régis Neto (a comunidade prefere o nome original: “Rua da Praia”), uma rua que acompanha o traçado irregular do rio Santa Luzia e sobe o morro em direção à Costeira de Zimbros. Quase ninguém morava ali na ocasião, já que não passava da extensão lamacenta da várzea fluvial, apenas ocupada por trapiches e tendais (estruturas usadas para secar o peixe ao sol). Mas, aos poucos, Valdemar providenciou o aterro, trazendo de barco o cascalho que retirava da praia do Canguá, na Ponta Grande. Seus filhos também ajudavam nessa tarefa, visto que só podiam emprestar a lancha do pai se voltassem com ela carregada desse material. “A gente pensava que ia dar uma brincada, mas trabalhava o dia todo”.

Aquelas margens eram, portanto, território de pescaria, até hoje a principal atividade econômica de Santa Luzia. Pesca-se principalmente camarão, em embarcações de pequeno porte que usam o estuário para se lançar ao mar e capturar o crustáceo nas imediações da enseada de Zimbros ou um pouco mais além. Na época em que Valdemar deixou a enxada para soltar redes, havia somente botes a remo, até que um certo Moisés, proprietário de terras, dono da salga e pai de Mitério Tibúrcio (aquele, do salão de baile), fez acordo com uma empresa de Joinville e passou a revender motores a gasolina para os rapazes da localidade.

Samuel conta um “causo” interessante sobre Moisés. Diz que ele quis colocar a popularidade à prova e concorreu às eleições municipais, mas foi superado por outro candidato do bairro. Magoado com a derrota nas urnas, mudou-se para Joinville — não sem antes proibir o acesso dos moradores às fontes de água que cortavam suas propriedades. “Quero que a turma de Santa Luzia morra de sede”, teria dito. Quatro anos depois, Moisés morreu enquanto pescava nas imediações de Canto Grande — “e não tomou um gole de água”, arremata seu Samuel, enfatizando a ironia com a sua risada habitual.

Valdemar conseguiu a sua primeira canoa a motor por meio de escambo: trocou-a por uma vaca leiteira. O motor de popa era do tipo “barrica”, de 6 Hp. Como já possuísse algum dinheiro, começou a comprar botes a remo para que outros pescadores se pusessem ao seu serviço. Punha quatro ou cinco botes amarrados à sua lancha e os rebocava mar adentro. Os filhos iam junto, pois ele os queria sempre por perto, fosse na lavoura, na carpintaria ou na pesca. Não gostava que ficassem à toa: “Quem não pode com a ferramenta, traz a água”, era seu lema. Assim, se o vento soprava do leste e nenhuma embarcação podia sair (“meu pai dizia que as férias do pescador é o mar grosso”) ou entravam os meses de junho e julho, quando não há camarão, os rapazes eram postos a cortar cana nas fazendas, entre outras atividades.

Samuel saiu para trabalhar no litoral do Rio Grande em 1969. Tinha quinze anos de idade. Sofreu puxando redes na praia do Cassino, mas guardou na lembrança um lanço de pescadinha particularmente bem-sucedido: foram necessários três ou quatro caminhões para levar toda a captura. Não foi isso que o impressionou, todavia, mas o espetáculo das ondas coalhadas de peixes quebrando na areia. “Foi a coisa mais bonita que eu vi até hoje”.

No ano seguinte, ele tirou a carteira de pescador e embarcou na parelha Zicaema. De tripulante, logo passou a mestre interino. Ficava de quinze dias a um mês fora, após o que voltava a Santa Luzia para desfrutar da condição de jovem solteiro e com dinheiro no bolso. Chegava nos bailes com os amigos e juntos distribuíam gasosa (“cerveja não existia”) para as meninas que ficavam sentadas nos bancos encostados nas paredes do salão. Não demorou a ficar comprometido, no entanto.

Foi durante um baile de carnaval na localidade tijucana de Timbé que ele conheceu Ionice Santana. Um amigo seu havia ganhado um Fusca num sorteio da loja Koerich e promoveu o arrasta-pé para comemorar. Ionice tinha 21 anos e era natural de Sorocaba, bairro de Biguaçu. Quatro anos mais velha, era também mais “cabeça” do que ele, segundo sua própria avaliação, razão pela qual o pescador jamais se arrependeu de ter contraído matrimônio. “Me botou um pouco no caminho”, afirma. Além disso, ela não fazia objeção às suas loucuras.


“Meu pai dizia que as férias do pescador é o mar grosso”


De fato, o filho do Valdemar era “meio doidão” (outra definição sua). Durante um tempo, trabalhou na construção de um barco em São Sebastião, por isso passou um tempo entre Santa Luzia e o litoral de São Paulo. Para fazer as viagens, adquiriu um Fiat 147 “todo furado”, no qual botava a família (seu primeiro filho nasceu em 1973) e toda semana rodava os 771 quilômetros entre uma cidade e outra, para espanto dos frentistas que abasteciam o vacilante meio de transporte.

“Eu gosto de aventura”, justifica, acrescentando que uma época cismou de ser caminhoneiro apenas pelo prazer de viajar. Rodou até Porto Velho, capital de Rondônia, Rio Branco, no Acre, e Natal, no Rio Grande do Norte, entre outros destinos. Sua esposa ia junto e, enquanto o “Guincho” entregava e recolhia carga, ela turistava. “Fiquei uns cinco anos nessa barafunda de caminhão”, calcula, sem, contudo, precisar em que ano isso começou. Na verdade, estabelecer datas não é o seu forte, e mesmo a do casamento ficou perdida em algum canto da memória. Lembra apenas que, na época do namoro, a BR-101 ainda não estava concluída: “Era só aquele barro batido”. Por outro lado, sustenta que tinha dezoito anos quando casou, o que nos daria o ano de 1972 (um ano depois da inauguração da rodovia, portanto).

De todo modo, visitar a noiva nos cafundós do Timbé não era muito encorajador. Por isso, após seis meses de namoro, Samuel propôs aos futuros sogros, Olindina e Adão, que viessem morar em Santa Luzia, pois seu pai possuía uma casa que eles poderiam ocupar. O casal aceitou a oferta e trouxe junto suas quatro filhas (“uma mais bonita que a outra”, elogia o genro, sorrindo).

Samuel continuava com suas barafundas enquanto a vida em Santa Luzia se modificava: velhos pescadores transmitiam o comando dos barcos aos filhos para assumir peixarias ou entralhar redes, sucumbindo ao peso das costas alquebradas. Seu Valdemar, que viveu até aos 88 anos de idade (ele morreu em 2011), passou de empresário do entretenimento a carpinteiro naval, iniciando um negócio de construção de barcos. Logo depois, seguindo a lógica da vida à beira do rio, passou a batuta aos filhos. Samuel estava entre os cinco que assumiram o estaleiro. Depois, resolveu construir o seu próprio barracão, junto ao outro e também dentro das terras de seu pai. Ionice tornou-se seu braço direito no negócio, que eles conduziram nos últimos 23 anos. A seu tempo, o filho mais velho, Edenilson, hoje com 44 anos, entrou na empreitada. Atualmente, é ele quem toca o lugar, pois o pai já não se vê em condições de fazê-lo. Aos 63 anos de idade, seu Samuel está no limiar da aposentadoria.

O estaleiro fica colado à margem lodosa do rio Santa Luzia. Conhecido em outros tempos como “rio dos Bobos”, suas águas turvas separam a Santa Luzia de cá, de Porto Belo, da de lá, de Tijucas. Do outro lado da margem, o que se vê é o mangue. Em volta do barracão, Samuel construiu a sua casa e o mesmo fizeram dois dos seus filhos. Ao todo, o casal tem quatro herdeiros: os demais são Mileide, de 39 anos, Joice, de 38, e Alexsandro, de 33, o único que não mora no bairro — ele vive no Rio Grande do Sul. Há também nove netos. Um deles, de doze anos, demonstra interesse pela atividade do avô e já consegue fazer um “caiquinho”. “Mas é na vontade dele”, ressalva o velho mentor.

Ensinar o ofício, a propósito, é algo que seu Samuel já fez até numa prisão. O convite inusitado ocorreu depois que ele se envolveu na perseguição em pleno mar a um sujeito que havia roubado uma bateira. O policial para quem ele reparava um barco solicitou a sua ajuda na operação e os dois, mais um auxiliar, abordaram o fugitivo, que os recebeu à bala. Depois de quase cinco horas de escaramuças com o homem, conseguiram desarmá-lo e o prenderam. Levaram-no para a Penitenciária do Estado, no bairro Agronômica, em Florianópolis, onde Samuel teve contato com a administração prisional, que lhe solicitou a tarefa. Ele ficou um ano ensinando aos presos os macetes da construção naval ­— inclusive ao cara que eles haviam capturado. Acabaram tornando-se colegas.

Atualmente, o Guincho apenas fabrica remos, que é algo que não exige esforço e rende um bom dinheiro no final do mês. A filha e uma nora agora ajudam Edenilson quando o trabalho no estaleiro aperta, mas o patriarca da família ainda não está preparado para largar o mar. Inclusive, já estava equipando o seu caíco para cercar as tainhas nestes meses de frio. O cerco é uma dessas coisas que o maravilham e talvez por isso tenha dificuldade em parar. Cenas que só acontecem nesse universo particular, como o curioso fenômeno do cardume de peixes acossado por golfinhos: “É a coisa mais bonita que existe, eles ficam roçando as escamas, aquilo você pode andar em cima que eles não afundam, com medo do boto”.

O prazer de viajar também não arrefeceu. Sempre que dá, ele embarca a família para passeios de final de semana ou faz o roteiro anual aos centros peregrinos de Iguape e Aparecida, em São Paulo, tanto de ônibus como de carro — cuja direção um neto seu, carteira de motorista recém-adquirida, está ávido por assumir.

A opção pelas festas de padroeiro é reflexo de uma mudança profunda que ele experimentou faz uns vinte anos. Na época, Samuel andava às voltas com um time de futebol feminino em que a filha Mileide jogava. Estava economicamente estabilizado, mas os gastos com a equipe amadora que treinava no campo do Luziense, no lado tijucano de Santa Luzia, bagunçaram as suas finanças: “Ali acabou-se tudo. Em quatro anos, foram onze carros”, estima, explicando que eram carros velhos, que ele consumiu fazendo o transporte da equipe — e mais custos com alimentação, uniformes etc.

É provável que outras coisas tenham contribuído para a crise, como a sua inclinação para as farras e a gastança (embora isso nunca fosse motivo de brigas entre o casal), mas o fato é que ele estava cansado. Um dia, sentou ao lado do túmulo de sua mãe e rezou por um sinal, embora não fosse muito religioso. Mesmo assim, num sábado à tarde, decidiu ir à igreja católica do outro lado do rio, para espanto dos fiéis que assistiam à missa. Ionice cantava no coro e foi ter com ele após o serviço religioso. Ao pisar fora do templo, algo aconteceu: sentiu como se um sopro de vento refrescante afastasse seu desassossego. Dali em diante, decidiu mudar. Recebeu outros convites para treinar times de futebol, mas desistiu dessa carreira. Prefere ocupar as manhãs de domingo dentro da igreja que elegeu, no bairro da Praça, em Tijucas. “Endireitei”.

Portanto, as águas que seu Samuel hoje navega são mais calmas. Na paz da religião e na tranquilidade da rotina familiar, a um passo de tudo o que ajudou a construir, ele vai levando. Ainda que não se possa dizer muito sobre o amanhã, tem boas razões para sorrir. Afinal, é como ele mesmo diz: “Eu vivi a vida”.

 (*) Entrevista concedida em 21 de abril de 2017.

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