Lá pelos fundos de Porto Belo, no Paraíso Campestre, onde a cidade vai encostando nos morros que a cercam, a fumaça saindo pela chaminé indica que dentro da casa de tijolos à vista estará mais aconchegante do que na rua. Dizem que é por causa do El Niño que este mês de outubro tem trazido tanta chuva e frio. O entrevistado nos recebe passando um café, pedindo silêncio aos cachorros e querendo saber como será a entrevista. Decide trocar de camisa quando confirmamos que iremos filmar o bate-papo. A decisão é aprovada por Maria, sua enteada, filha da veterinária Priscila Nishijima, esposa do músico.

Luiz Carlos Lourenço Ribeiro Santos, o Carlinhos Ribeiro, está com 35 anos. Seu pai é baiano, ascendente de escravos do interior de Salvador e criado no Rio de Janeiro. A mãe é portobelense e vive com o marido na mesma casa em que o pai dela nasceu, na virada do século passado: uma pequena construção de alvenaria com porta de saída para a Avenida Manoel Felipe da Silva, a poucos passos da praia que separa o baixio de Porto Belo da Enseada Encantada.

Carlão e dona Áurea se conheceram em Santos, aonde ela havia ido trabalhar. No litoral paulista nasceram os três filhos do casal: Carla, Carlinhos e Robson. Quando o filho do meio estava com seis anos de idade, a família mudou-se para Itajaí, onde viveu por seis meses. Depois disso, fixaram-se na casa que foi do avô materno de Carlinhos.

A mudança de ares trouxe a liberdade. Em Santos, a vida andava no compasso da periferia, com presença constante da polícia, do tráfico, toque de recolher antes que escurecesse e a hostilidade dos garotos mais velhos: “Me jogavam no canal quase todos os dias”, lembra Carlinhos. Em Porto Belo, sentiu como se houvessem “soltado um passarinho”: tinha pastos  para brincar, podia mergulhar no mar que batia diretamente no muro das casas da vizinhança (depois, um projeto de dragagem, em meados dos anos 1990, mudou o perfil daquela praia) e cuidar dos cavalos de um tio, com a contrapartida de poder montá-los à noite. Dava-se ao luxo de esquecer a bicicleta na frente do fliperama que frequentava, encontrando-a sempre no mesmo lugar.

Na adolescência, o reggae era o ritmo que embalava sua turma. Com doze anos, já exibia o cabelo cheio de dread locks, uma inovação que nem todo mundo aprovava. Por essa época, Carlinhos e seus amigos eram chamados de “Turma do Boné” – e aprontavam algumas pela região. Noites de Canoa Quebrada, luaus, brigas. Nada que pudesse ser classificado como delinquência juvenil, entretanto. Uma ocasião, porém, policiais o detiveram, suspeito de participar de um furto a residência em Itapema. Perplexo, facilmente provou sua inocência, mas insistiu em saber a origem da denúncia. A resposta não poderia ser mais prosaica: “armaram” para ele apenas porque queriam que cortasse os cabelos.

Em casa, Carlão, pescador e sambista pioneiro na cidade, preparava as refeições batucando nos utensílios da cozinha. Seu repertório incluía músicas de Clara Nunes, Bezerra da Silva e Waldir Azevedo. Carlinha, a primogênita, pegava o ritmo com facilidade, tinha aptidão musical e enchia o pai de orgulho. Carlinhos, por sua vez, não merecia a mesma consideração: “Esse aí não toca nada”, consternava-se Carlão.

Aprender a tocar tornou-se, então, questão de honra. O pai saía para a pesca e Carlinhos se esmerava em dominar algum instrumento. O primeiro foi o tamborim. Seu pai voltou, mas não mostrou grande entusiasmo. Desafiou-0 a tentar outro. Carlinhos aceitou a provocação e a rotina se repetia: Carlão voltava do mar, analisava criticamente o avanço do filho, desdenhava e impunha nova tarefa. Foi assim com o rebolo, o repique de mão e até com o pandeiro, com o qual seu pai não tinha grande intimidade, por isso ele esperava finalmente dobrar o exigente professor. Na roda de samba, os companheiros do pai ficaram surpresos com a desenvoltura do rapaz. Se ficou satisfeito, Carlão guardou a impressão para si. O elogio só viria muito mais tarde, porém Carlinhos hoje percebe a estratégia do pai: criticá-lo era uma forma de mexer com seu orgulho e fazê-lo dar tudo de si para aprender cada vez mais. Deu resultado.

Enquanto suava para merecer a aprovação paterna, alguns amigos seus já se viravam muito bem com música: montavam bandas e tocavam na noite. Apenas o futuro vocalista da Uniclãs, Nando Kruscinscki, como ele, era “temporão”. Mesmo assim, os dois se reuniam no quarto de paredes azuis do amigo para explorar algumas ideias musicais e, um dia, decidiram chamar os mais experientes para ensaiar. Carlinhos nem equipamento tinha, batucava em baldes, mas nesse improviso surgiu, em fins de 1999, a Al-Jihad, a primeira banda da qual participou. Tinha dezenove anos na época.

Após tocar em bares e arriscar algumas canções próprias, a Al-Jihad mudou alguns integrantes e o nome, passando a chamar-se Uniclãs. A ideia era fazer música autoral, com mensagens fortes e muita mescla de ritmos. Todos se envolveram com entusiasmo no projeto e a banda conquistou um sucesso regional difícil de ser imaginado na época. Carlos cita um show no bar Aloha, em Mariscal, onde a plateia ia de crianças a idosos, todos cantando as músicas que eles compuseram. “Tinha gente em cima do balcão, pais com crianças e todos cantando ‘Escravos da Engrenagem’, que é uma música muito atual”, recorda, com o mesmo sentimento de espanto de então.

Claro que houve dificuldades. A maior delas era conciliar o gênio de todos os músicos. Os atritos eram inevitáveis e faltava ao grupo, ele avalia em retrospecto, a maturidade necessária para resolvê-los. Um ano e meio após estourar com o CD de estreia (“Viagens no Exílio”, de 2003), a Uniclãs estagnava. O segundo trabalho, “Animus”, só saiu em 2008. Carlinhos e mais dois membros originais (Cezinha e Alex) não participaram dessa gravação. Na ocasião, ele já havia saído da banda – estava com a cabeça em outro lugar.

Foi por essa época que ele teve contato mais próximo com os ritmos afro-brasileiros. Estava convicto de que a música autoral era o “grande lance”. Queria tocar com outros artistas, aprender e evoluir. Passou a se arriscar no choro, no samba, no jazz e ritmos latinos. Mesmo com um sucesso de público ímpar na região com a banda, o rapaz se dedicou a tocar em diversos projetos com gente que, para ele, era referência. Em 2003, durante o Festival de Música de Itajaí, conheceu duas figuras importantes em sua formação artística: o maior percussionista brasileiro em sua opinião, Robertinho Silva – músico de Milton Nascimento por praticamente 30 anos – e a cantora joinvillense Ana Paula da Silva. Praticante da capoeira, já sentia um arrepio na pele ao ouvir o toque metálico do berimbau e a roda de luta formada. Porém, esse festival, quando pôde abrir um show de Elza Soares, foi um momento crucial, no qual os tambores passaram a fazer muito mais sentido em sua vida. Passou a estudar o maracatu, o jongo, o ijexá, o catumbi – toda a matriz de música negra que é parte da identidade cultural brasileira.

No ano em que saiu “Viagens no Exílio”, Carlinhos começava a ministrar as primeiras aulas de percussão em Porto Belo. Reuniu algumas crianças no colégio Tiradentes para ensinar o ritmo e também conversar sobre conduta, conscientizar, passar um pouco da sua experiência de jovem adulto. Mas, como é de se esperar de um lugar onde qualquer manifestação da cultura negra é logo reduzida à condição pejorativa de “macumba”, o músico teve dificuldades. Isso se repetiu em sua investida no município vizinho: por meio de uma parceria com uma loja de artesanatos local, Carlinhos foi a Bombas iniciar um projeto, mas encontrou as portas da escola no bairro Zé Amândio onde iria começar ostensivamente fechadas.

Mas ele não se abateu, e sua persistência foi recompensada com alguns trabalhos importantes desenvolvidos em Bombinhas, como o grupo Treme-terra, que promoveu arrastões culturais pelas praias, cirandas que reuniam mais de uma centena de pessoas no verão e vivências ricas em aprendizado.

Ao mesmo tempo em que realizava, Carlinhos também batalhava o próprio som. Com a grana curta, encarava ônibus até Joinville com seu aparato de músico estudioso, num bate e volta interminável e cansativo. Nesse vai e vem, situações embaraçosas aconteciam: em Balneário Camboriú para uma oficina, alguém confundiu o seu cajon com uma caixa de engraxate e pediu um lustre nos sapatos. Entre os artistas, por outro lado, ninguém se confundia: o portobelense despontava como talento e muita gente o chamava para gravar percussão em seus álbuns – Arnou de Melo, Ricardo Pauletti, Ana Paula da Silva, Giana Cervi. Com Ana Paula, partiu para excursões pela Argentina, Áustria e Alemanha, em sua primeira oportunidade de levar o tambor para além das fronteiras do estado – resultou também em episódios cômicos para alguém que pela primeira vez botava o pé no exterior, não entendia uma palavra de alemão e não se parecia em nada com um.

Pela música, Carlinhos também viveu um tempo fora de Porto Belo. Entre 2007 e 2009 morou em Joinville, onde ministrava aulas na casa da cultura da cidade. Depois, a convite do músico Serginho do Trombone – e vendo que as coisas estavam um pouco paradas por aqui –, rumou para Curitiba. Ficou lá durante um ano. Nos dois primeiros meses, teve que se virar num quarto de 2×2 (“a minha senzala”) que Iê do Pandeiro havia conseguido para ele. “Cheguei e já tinha um livro de partituras do Tiziu [que, apesar do nome, era um tipo árabe com olhos verdes, segundo descreve] para eu treinar”. Na capital paranaense, o percussionista acrescentou um novo ritmo ao repertório já bastante variado: a salsa.

Com Tiziu também frequentou um terreiro do Candomblé, onde pôde se manter em contato mais íntimo com a tradição afro-brasileira. “Era lindo”, rememora. Embora não se defina como religioso, Carlinhos sabe que goza de certa sensibilidade para as manifestações do invisível: em 2003, durante uma reunião em Bombinhas com a colaboradora permanente Ana Paula e algumas outras pessoas, realizaram uma roda de maracatu. Um desconhecido o olhava de modo estranho. “Ele queria saber se eu era um ogã [tocador de atabaque na tradição do candomblé e uma personagem importante dentro dos cultos]. Acho que rolou uma conexão com o instrumento [o atabaque]”, desconfia.


“O Brasil é isso, não tem como negar. É indígena e africano”


Depois de muito peregrinar, Carlinhos Ribeiro assentou o pé novamente na cidade que ele pode chamar de lar. Confiante na capacidade transformadora da música, da qual é, de certa forma, um produto, tem se convertido cada vez mais em agente dessa transformação. Chamado a atuar na fundação de cultura do município, deu uma importante contribuição para a realização de alguns projetos inovadores, como o palco de verão Som da Maré e o festival musical Polifonia do Sal. Ambos buscam valorizar a música autoral, da qual Santa Catarina é “um celeiro fenomenal”, segundo sua avaliação. “Tem muita gente boa que as pessoas não conhecem”, afirma.

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A boa vontade do setor público para questões envolvendo a cultura, como se sabe, pode ser transitória. Por isso, ele aposta em parcerias com o setor privado: uma delas, com o Espaço Bonequiando, um ateliê de cerâmica no centro da cidade, resultou no Sarau de Quintal, um evento cuidadosamente preparado para receber boa música, poesia e artes plásticas. “É nesses projetos independentes que mais boto fé. Esses eu sei que não vão parar”, confia.

Seu envolvimento mais frequente, porém, é com as crianças e jovens. Como professor contratado pelo município, o músico ministra aulas de maracatu nas escolas e na Fundação de Cultura, onde formou um grupo de pequenos percussionistas. Diferente do que ocorre nas escolas, em que muitos talentos acabam desistindo por falta de apoio em casa, o Batuque Mirim reúne nove meninos e meninas que contam com o suporte de pais interessados. Eles são o seu tesouro: “Alguns já demonstram interesse em ser músicos, professores”, orgulha-se.

Comercialmente, Carlinhos Ribeiro tem se dedicado principalmente a dois projetos: o Música Orgânica e o Sarau Afro-açoriano. Ambos carregam a marca da música com a qual gosta de trabalhar: canções autorais, com riqueza rítmica e letras bem elaboradas. Letras, aliás, que ele tem ajudado a compor com mais frequência, uma reação sua ao que o músico Toicinho Batera costuma receitar: “É preciso deixar o neurônio do desejo trabalhando o tempo inteiro”. No Sarau Afro-açoriano, isso significa falar sobre as matrizes indígena e africana em pé de igualdade com a tradição açoriana, em geral tratada com maior deferência que as demais manifestações na nossa cultura. “O Brasil é isso, não tem como negar. É indígena e africano”, justifica Carlinhos que, no entanto, já viu sua roda de capoeiristas ser boicotada no Valongo (“que é um quilombo, pô!”). Na época, o grupo comandado por mestre Renê havia adquirido numa ação cestas básicas e resolveu entregar algumas naquela comunidade isolada do município. Quando resolveram formar a roda e tocar seus instrumentos, porém, todas as pessoas deixaram o local. Lá, são todos adventistas.

Conquistas, percalços e experiências de alguém que se doa pela música e pela cultura que está impressa em seu sangue, na sua história. Um cara que não cultiva amarguras dos momentos difíceis nem se furta de rir dos infortúnios passados. Alguém que se vê no melhor momento de sua carreira. Que vive da sua arte, na cidade que ama, participando de projetos interessantes. Planos não faltam: produzir um trabalho autoral de percussão (“tem que ser antes dos 40”), viajar com os dois projetos em que está envolvido e com os quais irá gravar em breve (“é uma coisa que vejo que ainda falta para o pessoal. Eu, que já fiz, gostaria de fazer com eles”), garimpar talentos entre os jovens da cidade. Um sujeito perfeccionista (“mandão!”, corrige uma voz ao fundo: a esposa Priscila), de personalidade forte e de sensibilidade ao rés da pele. “Sou um cara intenso”, resume-se. E, com certeza, com muito mais ainda a realizar.

Ah!, o elogio tão esperado do velho sambista, pai de Carlinhos, finalmente veio, em 2002…

(*) Entrevista concedida em 12 de outubro de 2015.

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