Tarde de sexta-feira, feriado de 7 de Setembro. Na avenida Governador Celso Ramos, entre a Praça e o Paço Municipal, crianças, jovens e adultos das redes municipal, estadual e particular de ensino fervem as cabeças sob um sol de rachar. Marcando o compasso do tradicional desfile cívico ouvem-se os bumbos da fanfarra Maria do Espírito Santo Bayer. À frente dela, está Fernando Scheffler. Para quem o vê ali e não sabe da missa a metade, é um fato trivial, pois desde muitos anos que o professor aposentado dirige a banda da Escola de Ensino Básico Tiradentes. Para ele, deve ter sido uma conquista e tanto. Sete meses antes, suas perspectivas não eram muito boas. Aos 68 anos de idade, um AVC se interpôs em seu caminho.

“A gente passa a ver a vida de outra forma”, reflete seu Fernando dois meses após o desfile, nove do acidente vascular cerebral, em uma tarde nublada de sexta-feira, 9 de novembro. Sentado a um canto da área comum de sua casa e emoldurado pelas orquídeas que cultiva, nada apresenta do drama que viveu. Apenas o falar, em alguns momentos, escorrega, as últimas palavras de uma sentença longa misturando-se umas às outras. Talvez porque, nesta tarde, ele tenha contado muito, repassando os anos de sua vida.

Fernando não nasceu em Porto Belo por questão de oito dias. Sua genitora, Valdomira Ferreira Abreu, vivia em Florianópolis quando o teve, a 15 de novembro de 1950, e após o parto decidiu retornar aos cuidados de Maria Dias Scheffler, a quem tinha como mãe.

MARIA SCHEFFLER

Maria era viúva de Frederico Gustavo Scheffler, um engenheiro de mineração alemão que chegou ao Brasil em 1905 e, de 1908 a 1911, dirigiu os trabalhos de construção da estrada de ferro de Santa Catarina, no trecho entre Blumenau e Indaial. Conheceu-o em 1916, em seu município de origem, Encruzilhada do Sul (RS), onde Frederico explorava estanho em sociedade com belgas. Mudaram-se para Porto Belo em 1922, tomando como residência uma casa colonial de quatro águas e janelas em arco à margem da rua do Comércio, a principal via do município.

Construída em 1903 por Gualberto Leal Nunes e depois vendida ao empresário florianopolitano, filho de alemães, Carlos Hoepcke (e comprada deste por Frederico), foi a segunda casa de alvenaria que Porto Belo conheceu. Ainda está de pé (a primeira, chamada Casa do Alferes e datada de 1814, também), guardando a esquina do lado esquerdo da Alameda da Cultura, acesso pavimentado em 2014 ao Baixio, parte da praia central dedicada à prática de esportes e delimitada de um lado pela desembocadura do rio Rebelo e, do outro, pelo Píer Municipal.

Tombada como patrimônio municipal, a edificação recebeu uma recente demão de tinta roxa e abriga um estúdio fotográfico. Anexas a ela estão as dependências onde Fernando, a esposa Miriam, de 53 anos de idade, e Maiara, filha do casal de 30, vivem. O outro filho, Frederico, de 33, mora logo atrás, e os três filhos deste, únicos netos de Fernando e Miriam, não tomam conhecimento do muro que separa as duas propriedades. Completam o contingente de moradores na sede dos Scheffler oito cachorros e nove gatos, aparentemente vivendo de modo pacífico.

Frederico e Maria se casaram em maio de 1926. Ele tinha 55 anos de idade; ela, 28. Como não puderam gerar filhos, adotaram Valdomira. Depois de adulta, a moça tocou a vida, indo morar em Florianópolis. No início de 1950, engravidou. Prestes a ter o bebê e sozinha, comunicou o fato por telegrama à mãe adotiva, que pediu-lhe que voltasse a Porto Belo. Na ocasião, a gaúcha também já estava só: Frederico havia morrido, aos 70 anos de idade, em outubro de 1941.

Baixa e morena, Maria Scheffler era uma mulher enérgica e sem raízes. Nenhum laço de sangue, seu ou de seu marido, a ligava à comunidade à qual se viu desterrada. Certamente, amenizava a sua condição a aparente simpatia dos moradores do lugar. Testemunho disso é o fato de o casarão ser um endereço concorrido à época em que Fernando era garoto. Pessoas vinham para que ela as benzesse ou visse-lhes a sorte no baralho. Bastava um olhar e não havia segredos, Maria adivinhava as intimidades, assombrando o povo. A viúva também criava aves e tinha plantação nos fundos do terreno, cuja extensão tocava a areia do Baixio. Cultivava uvas e fazia um vinho muito apreciado. Tudo isso permitia que tivesse ascendência sobre a sociedade local.

Economicamente, virava-se com a renda que Frederico legou. Quando esta se esgotou, lá pelo início da meninice de Fernando, ela continuou a manter a casa com produtos da horta, com as criações e as predições (o benzimento, como manda a tradição, não era cobrado) e o aluguel de quartos do casarão em regime de pensão (foi ali que João Sombrio montou seu primeiro gabinete de dentista, em 1957). Além disso, o alemão deixou-lhe outras posses: duas quadras a diferentes alturas da mesma rua onde moravam (uma delas ainda se mantém), onde o engenheiro plantou eucaliptos para uso na fabricação de postes e pontilhões.

Durante boa parte da infância, Fernando viveu sob os cuidados das duas mães. Daqueles primeiros tempos, ficou a lembrança de uma vizinhança feita de poucas casas: duas à esquerda, rumo ao rio (ambas sobreviventes), o casarão de Neném Matias, que se foi; uma série de moradas conjugadas onde hoje é o comércio de materiais de construção Vulcão; mais uma aqui, outra lá. De resto, o que tinha era muita picada e mato.

Mas era um lugar de aventuras para a meninada. Fernando reunia-se aos filhos de Mané Carias e de Zé Dodóca em brincadeiras à beira-mar, puxando carrinhos feitos de latas de leite em pó, conduzindo rodas de borracha com hastes de arame e disputando partidas de bolas de gude. Também se divertiam pulando da ponte de madeira que cruzava a rua do Comércio, de onde se via a areia branca sob a água límpida do rio — fazer isso, hoje em dia, é impossível: a água é imunda e o fundo, um lodaçal.

Noutras vezes, o rapaz apenas se sentava na calçada em frente de casa, os pés sem alcançar o chão, e observava o vai e vem do cotidiano e os eventuais cortejos fúnebres que passavam em direção à Igreja Matriz. Sucessivos aterros fizeram com que o leito da rua, atual Manoel Felipe da Silva Neto, ficasse no nível do passeio.

Perto de completar oito anos, Fernando e sua mãe contraíram a gripe asiática. Originária da China, a doença assumiu ares de pandemia entre os anos de 1957 e 1960, matando em torno de 1,5 milhão de pessoas. Valdomira, cuja saúde era frágil, não resistiu. Com isso, Maria Scheffler ficou sendo a única família do rapaz, tão desenraizada uma quanto o outro.

TIRADENTES

Fernando iniciou os estudos no Grupo Escolar Tiradentes. Concluído o primário, não havia como avançar. Ele, então, passou um ano sabático trabalhando para Haroldo, o marceneiro alemão, experiência que considera ter sido “muito válida”. A partir dos quinze anos, cursou o ginásio no Colégio Cenecista Coronel Benjamin Gallotti, de Tijucas. Durante dois anos, precisou caminhar uma hora até onde hoje fica a rótula do supermercado Koch para pegar a condução, fizesse chuva ou sol. Só quando estava no terceiro ano é que se disponibilizou ônibus a partir do centro de Porto Belo.

Após o ginásio, o rapaz se matriculou no Instituto Estadual de Educação, em Florianópolis, onde cursou, por mais três anos, o ensino científico. Durante dois terços desse tempo, viveu na capital e alimentou o sonho de fazer medicina. Não era possível, entretanto. Por isso, Fernando voltou a Porto Belo e deu um rumo diverso aos estudos: prestou o vestibular da Fundação de Ensino do Polo Geoeducacional do Vale do Itajaí (Fepevi), em Itajaí, e foi estudar letras.

Ainda durante a faculdade, em 1971, surgiu a oportunidade que definiu a sua carreira: “Dona Maria do Espírito Santo [diretora da Escola Básica Tiradentes] me chamou e ofereceu duas quintas séries: ‘Tu vai dar conta, Fernando?’. Eu disse que, se não der, é só me mandar pra rua”. Ela não mandou, e Fernando ficou 36 anos no colégio, cinco dos quais como diretor, entre 1982 e 1987. Em 1978, ele correu a cidade de bicicleta para obter assinaturas e implantar um núcleo da Campanha Nacional de Escolas da Comunidade (Cnec) no Tiradentes, instituindo no ano seguinte o ensino de segundo grau no município (até então, chegava somente à oitava série). O Colégio Cenecista Íris Fadel disponibilizou cursos de técnico em contabilidade até 1985, quando a administração municipal decidiu estadualizar a unidade.

Foi ainda em 1979 que Fernando conheceu Miriam Dettmer. Natural de Joinville, ela veio com os pais morar em Porto Belo e passou a frequentar o Tiradentes, onde chamou a atenção do professor de português. Os dois iniciaram um relacionamento que contou com a aprovação de Arnold e Zenir Dettmer e redundou em casamento em setembro de 1985, quatro meses após a morte de Maria Scheffler, aos 88 anos de idade. Viveram um tempo no casarão e depois construíram a casa anexa em que atualmente vivem. Nas tardes e noites de verão, os dois convertiam o tradicional endereço em sorveteria, aproveitando o público que o posto telefônico local, no outro lado da rua, atraía (em uma época sem aparelhos celulares) e a agradável sombra dos jambolões plantados ao lado deste: “Tinha um movimento danado”.

SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO

Miriam também se dedicou ao magistério e, atualmente, trabalha como orientadora educacional da escola municipal Alfredo Domingos da Silva, em Balneário Camboriú. Fernando abandonou os diários de classe no final de 2006. Aposentou-se pelo Estado e, no ano seguinte, foi convidado pela administração do petebista Albert Stadler (2005-2008) a assumir a coordenação da Secretaria de Educação. Durante a sua gestão foram implantadas as séries de 5° ao 8º ano na rede municipal de ensino, pois o Tiradentes já não supria a demanda. Quatro anos depois, na última metade do segundo mandato de “Curru”, passou a Secretário de Educação, após o licenciamento da titular, Jane Silva. Encerrado o mandato de Stadler, Fernando voltou a se ocupar de um velho e querido projeto: a fanfarra do Tiradentes.

O professor entrou na banda no ano seguinte ao seu ingresso na então escola básica. Começou tocando bumbo, mas não demorou a meter a colher nas questões internas do grupo. Na época, os instrutores vinham de fora, mas logo os músicos ficaram sem regência. Fernando, então, assumiu a direção e pode-se dizer que não largou mais. Mesmo quando ocupado com a Secretaria ele volta e meia dava umas escapadas para acompanhar os ensaios, que ocorrem entre os meses de março e setembro. Quando reassumiu para valer, saiu a passar o chapéu pelo comércio local e conseguir meios de repor alguns instrumentos. Mesmo assim, a fanfarra carece de fundos. Seu desejo secreto é contar com um barracão de ensaios e dinheiro para trazer professores. Na falta disso, se vira com o que dá, preparando a sucessão para quando, inevitavelmente, terá de sair de cena.

No início de 2017, após nova mudança no comando do município, Fernando Scheffler voltou à Secretaria de Educação, outra vez como coordenador. Ficou até o início deste ano, quando, ao final de um dia de trabalho, de uma xícara de café e um banho, teve o AVC: “Eu lembro que chamei alguém. Eu via as pessoas ao meu redor, mas não tomava conhecimento do que acontecia”. Levado ao hospital municipal Ruth Cardoso, em Balneário Camboriú, ficou três dias na UTI e quatro em internação. Voltou encerrado numa cadeira de rodas, o lado direito do corpo paralisado e com extrema dificuldade em se comunicar. Vinte e cinco dias depois, porém, constatou emocionado que conseguia caminhar e, em dois meses, estava restabelecido. Mais um mês e meio e reassumiu a sua função de juiz de paz, que desempenha desde 2016, celebrando e homologando casamentos em Porto Belo e Bombinhas: “Só não voltei para a Secretaria porque estava na hora de dar um basta”.

De fato, convém moderar. Depois de contribuir para a educação de gerações de portobelenses, o professor-regente-casamenteiro merece se liberar para executar funções menos complexas, mas absolutamente prazerosas, como ver os netos crescerem, caminhar na orla ou sair para pescar atrás da ilha com o filho. Coisas de quem percebe, num sobressalto, onde está o verdadeiro valor da vida.

(*) Entrevista concedida em 09 de novembro de 2018.

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