De sua poltrona na sala de visitas, João Antônio Sombrio olha para a paisagem nem mutante nem estática que tem sido sua companheira nos últimos quarenta anos. As portas corrediças que dão para a sacada deixam entrar uma brisa que refresca o aposento e espanta o mormaço que se sente lá embaixo, no asfalto. Deixam entrar junto o alarido da Governador Celso Ramos. Seu João, no entanto, gosta do barulho. No verão, ele costuma armar sua rede na sacada para acompanhar o vai e vem de pessoas e carros pela avenida central da cidade. Também gosta de olhar o mar, mas esse já não se pode mais ver dali: as construções erguidas no outro lado da avenida cobrem-lhe a vista. Apenas olhar, pois seu João teme o oceano: “A morte no mar é a mais triste”, considera. Certa vez, quando tinha uma propriedade pelas bandas da praia Vermelha, na Costeira de Zimbros, pegou um temporal enquanto voltava de barco, e talvez esteja aí a razão do seu temor.

Seu João Dentista, como todos na cidade o conhecem, tem 83 anos de idade e é viúvo. Mora com um dos filhos, Beto, de 45 anos, no apartamento que em cima as duas lojas e a agência bancária que hoje ocupam o lugar que foi do supermercado Pioneiro – que, como o nome já diz, foi o primeiro de Porto Belo. Toda a propriedade ele comprou em 1971, pouco mais de uma década após aqui chegar, vindo de Braço do Norte (então, distrito de Tubarão, no sul do Estado). Também como o apelido entrega, veio para trabalhar como dentista. E nisso foi igualmente pioneiro – o primeiro que tivemos.

Nascido numa família de lavradores que depois passou ao setor ceramista, com 21 anos João estava preocupado com o futuro. Com mais quatro irmãos em casa, achava que as terras da família não dariam sustento para todos. Assim, inventou de ir para o Paraná. Em Capelinha (atual Nova Esperança, município da Região Metropolitana de Maringá), encontrou guarida na casa de um amigo – e uma profissão. Ficou três anos aprendendo as artes de dentista, até a saudade apertar e ele decidir retornar. Não permaneceu em casa muito tempo, porém: ouviu de outro amigo sobre Porto Belo, “uma cidade muito boa, que estava crescendo” e não tinha quem cuidasse das bocas do povo – apenas um profissional que aparecia uma vez por mês. Quando a situação exigia, só mesmo indo a Itajaí (mais tarde, a Tijucas, onde começava a dar consultas o doutor Lauro Brito).

João decidiu investigar. Pegou um ônibus que o deixou no ponto final, na rótula onde hoje está o supermercado Koch, no Perequê. Dali, embarcou no carro-de-mola (espécie de charrete) de Isaul Guerreiro – “era o táxi daquela época” – até a pensão de dona Maria Scheffler, onde agora funciona a fundação de cultura do município. O recém-chegado deu umas voltas pela cidade, que se resumia a uns poucos estabelecimentos e casas na Rua do Comércio (hoje Manoel Felipe da Silva Neto) e adjacências. A atual avenida principal não ia muito longe: a ponte ao lado de onde agora fica o escritório da Casan estava quebrada – ninguém passava por ali. Veículos, havia apenas quatro: o caminhão de Lilo Silva, a caminhonete de Neném Matias, então prefeito da cidade (a qual pertenciam os atuais municípios de Bombinhas e Itapema), um Ford de Cinho Patrício e mais outro, cujo proprietário João não recorda.

O forasteiro gostou do lugar, agradou-se da beira-mar e viu que as pessoas eram “mais ou menos iguais ao pessoal de lá [de Braço do Norte]”. Soube que dona Maria tinha uma sala vaga e propôs alugá-la, mais um quarto e comida. Acertaram preço e o moço retornou a Tubarão para pegar suas coisas e voltar no fim do mês.

Sua boa memória guardou a data precisa: 7 de abril de 1957, uma quarta-feira de Cinzas. Mal montou o gabinete, organizou os apetrechos, já tinha gente precisando de seus cuidados: naquela semana mesmo, João extraiu dois dentes de Carmelita, filha de seu Mamede, funcionário público que mais tarde seria barbeiro na cidade. Naquele tempo, Porto Belo ainda não dispunha de iluminação pública, que só chegaria em 1963, e raras eram as propriedades que dispunham de eletricidade. João Dentista, portanto, broqueava usando um sistema de pedal: conseguia fazer a broca girar mil vezes por minuto (hoje em dia, o motorzinho que causa pânico em muito adulto chega a 400 mil rotações por minuto).

Menos de um ano após chegar, João já estava perfeitamente integrado à comunidade. Estabeleceu amizade com todos, prosperava em seu ofício e possivelmente despertava o interesse de algumas moças do lugar. Uma, pelo menos, chamou-lhe a atenção e ambos trocavam cumprimentos sempre que ela passava em frente ao seu gabinete. Encontraram-se dia 20 de janeiro de 1958, durante a festa de São Pedro em Canto Grande, e conversaram. Naquela noite, o pessoal de Porto Belo que havia ido ao baile pernoitou na localidade e, no dia seguinte, retornaram todos juntos. Ali, os dois começaram um namoro.

O nome dela era Bernardina Sancho. João cumpriu o rito de pedir-lhe a mão ao pai, José Sancho, e completaram um ano e pouco de namoro e outro tanto de noivado – prazo “regimental” da época –, casando-se em 24 de setembro de 1960. Dinha, como era conhecida, tinha 19 anos.

Construíram sua primeira casa onde hoje é um terreno baldio, ao lado da agência do Banco do Brasil. João continuava a ser o dentista, mas não estava muito confortável com o título. Tendo estudado apenas até a quarta série, que cursou à custa de jornadas diárias de duas horas a pé até a escola, ida e volta (teria que dobrar o percurso se quisesse continuar), era o que chamavam de “prático”, e sentia como se exercesse um trabalho clandestino. Por isso, pensou em alternativas. Montou uma granja, plantou cana, mas o que realmente vingou foi um armazém de secos e molhados.

No alto, Dinha e João, quando ainda solteiros; abaixo, à esq. no dia do casamento, em 1960; à dir. a primeira residência do casal, em 1963 (fotos: arquivo pessoal)

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João construiu seu estabelecimento na atual Alda Tavares Matias, rua de acesso ao morro de Zimbros. Na época, os ônibus iam apenas até o centro da cidade, encostando na rodoviária que ficava em frente à primeira casa de João Sombrio. Passageiros com destino ao Zimbros e Canto Grande precisavam desembarcar ali e seguir a pé até em casa. No percurso, passavam em frente ao armazém e se abasteciam com víveres, roupas, ferramentas. Enquanto o arranjo permaneceu, ele lucrou. Quando uma linha de ônibus ligou o centro aos bairros do que é hoje o município de Bombinhas, o negócio definhou. Mais tarde, em 1975, João vendeu o armazém, que continuou funcionando até quase uma década atrás, quando o último proprietário, seu Zeli, morreu. Faz uns três anos, o imóvel foi demolido e um prédio com salas comerciais construído no lugar.

Alguns anos antes, João já estava procurando outro local para estabelecer seu novo comércio. Quando soube que dona Floriana queria vender o terreno que possuía quase defronte à rodoviária, foi até Florianópolis negociar. “Lembro até do nome da loja dela: Mademoiselle”, sorri. A proprietária fixou o preço: 50 mil cruzeiros. Ele voltou a Porto Belo e, com a esposa, tratou de levantar o dinheiro: venderam o Fusca que possuíam (por CR$ 18 mil), juntaram as economias e conseguiram algum empréstimo com os amigos.

Um mês após o primeiro encontro, João Sombrio estava novamente à porta de Floriana, que o recebeu com um golpe de esperteza: percebendo que ele estava realmente empenhado na compra, resolveu especular, subindo o preço do imóvel para CR$ 55 mil. De fato, o casal não desistiu: obteve mais alguns empréstimos e, finalmente, conseguiu o título de propriedade. Já havia uma casa no terreno, que dona Dinha usou para abrir uma loja de roupas, enquanto o marido construía o comércio que seria por décadas o negócio da família.

O supermercado Pioneiro abriu as portas em 1972. Possuía frigorífico e material de ferragens anexo. Por esses anos, os turistas começaram a aparecer aos montes na cidade. Como poucos ainda se aventuravam para além do morro de Bombas, a praia do centro lotava no verão, situação que continuaria pela década seguinte. Entre o pessoal que veraneava na cidade, havia dois jovens noivos, os gaúchos Sérgio e Josiane, ele estudante de medicina (e futuro prefeito da cidade), ela de odontologia. João ainda exercia a prática de dentista, mas ao saber que a moça se formaria no ano seguinte e pretendia vir morar em Porto Belo, assegurou: “Quando tu te formares, eu paro de trabalhar como dentista”. E assim o fez.

No comércio, João Dentista fez carreira: “Ganhei muito dinheiro”. No final dos anos 1980, porém, o negócio já não era tão rentável e havia outros supermercados exercendo concorrência. Ele acabou fechando o mercado em 1991, mas manteve o comércio de ferragens em seu lugar de origem até o ano 2000. Então, toda a área térrea do prédio que construiu em 1972 e onde mora desde então foi alugada. Hoje há uma agência do Bradesco, uma loja de armarinhos e outra de roupas onde antes havia o Pioneiro. Apenas uma acanhada e escura sala na lateral da propriedade que dá para a Rua Capitão Gualberto Leal Nunes, atrás da escada que leva da rua ao seu apartamento, antiga garagem e depósito, abriga o Materiais de Construção Pioneiro, de propriedade do caçula João Sombrio Júnior, último resquício do espírito empreendedor do pai. Este ainda pode ser encontrado atrás do balcão da loja, atendendo os clientes ou conversando com velhos conhecidos que eventualmente aparecem por ali, mas Júnior tem planos para mudar o negócio para o bairro Perequê. Então, finalmente, João Dentista irá se render à aposentadoria.

O supermercado Pioneiro, inaugurado em 1972, fechado em 1991 (foto: arquivo pessoal)

“NINGUÉM QUEIRA TER A MINHA VIDA”

De sua poltrona na sala de visitas, João Sombrio olha a tarde quente de novembro. Lembranças enevoam o olhar suave, obscurecem o sorriso. O êxito empresarial e a tranquilidade de uma vida construída a trabalho não evitaram uma sucessão de tragédias familiares. João e Dinha tiveram cinco filhos e suportaram a dor de enterrar dois deles. Inclusive a única filha do casal, Gilena, que morreu com apenas cinco anos de idade no antepenúltimo dia de 1968, em um acidente doméstico durante uma visita à família do pai, no sul do Estado. Após a perda, o casal desejou outra menina, mas viu nascerem uma sequência de meninos. Então, o mais velho também morreu. Uíltom tinha dezenove anos quando foi vítima de um acidente de carro em Florianópolis dia 7 de abril de 1971, e novamente os dois sentiram o desgosto de prantear um filho na flor da idade.

Sem outro recurso que não seguir adiante, o casal superou as tristezas, criou os demais garotos, dividiu esforços na condução do negócio da família, construiu uma longa vida em comum. Até que dona Dinha também se foi. Seu João, que rememorou a perda dos filhos com olhos opacos de pesar, os sente marejar ao lembrar o que ocorreu há cinco anos: Dinha precisava fazer uma cirurgia para correção de uma catarata. Incluído na série de exames pré-operatórios, o eletrocardiograma apontou um problema no coração. A princípio, a situação não alarmou a família: um cateterismo resolveria o problema. A esposa foi internada no Hospital Marieta Konder Bornhausen, em Itajaí, para se submeter ao procedimento. João quis passar a noite ao lado do seu leito, mas Dinha o dissuadiu: “Não fica aqui, não. Não tem nem onde tu dormir. Vai pra casa, amanhã eu já vou também”. Ele acedeu. No dia seguinte, recebeu uma ligação, instando-o a comparecer ao hospital. Ao chegar, teve a notícia improvável, porém terrível: uma complicação durante a cirurgia havia levado sua esposa a óbito.

“Ninguém queira ter a minha vida”, conclui João ao cabo dessas dolorosas lembranças. Faz uns anos, temeroso da solidão, ele tentou viver com outra companheira. Porém, o relacionamento não deu certo: “Estava acostumado com um anjo. Essa outra pessoa me falava coisas que nunca tinha ouvido na vida”, explica. Eles se separaram e hoje apenas se falam ocasionalmente. Assim, João Dentista segue uma espécie de sina familiar: todos os seus irmãos também são viúvos. Apenas uma irmã ainda tem o marido ao seu lado, um septuagenário que gosta de jogar futebol. Dos filhos que casaram, Udson, que vive em Bombas, e Júnior (Beto é solteiro) tiveram garotos. João não pôde, até aqui, satisfazer o desejo de ter novamente uma menina correndo pela casa, que, no decorrer do tempo, tornou-se enorme pela sucessão de ausências.

Na sala de visitas, porta-retratos lembram outros momentos, mais felizes. Uma antiga foto-pintura do casal Dinha e João quando ainda solteiros, ela de olhar intenso e cabelos negros ondulados, ele com semblante circunspecto e sobrancelhas grossas, domina a parede acima da estante. Apreciador da fotografia, João possui centenas de fotos que são um testemunho em preto e branco de tudo que viveu até aqui, retângulos de papel impregnados de saudade que fazem-no suspirar e sorrir, constatando: “Foi uma vida boa”.

(*) Entrevista concedida em 28 de novembro de 2015.

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