No piso superior da Câmara de Vereadores de Porto Belo há um memorial com documentos e imagens da história da cidade. À esquerda, logo após o último lance de escadas, uma grande reprodução fotográfica fixada na parede rememora a chegada da energia elétrica ao município. Datada de 1963, a cena em tons sépia mostra algumas sorridentes autoridades — entre elas, o prefeito da época, Leopoldo Guerreiro — posando diante de uma trinca de caminhões carregados com postes de madeira, com alguns populares mais atrás. À esquerda, alheias ao clima festivo, crianças brincam deslizando do barranco que margeia a estrada. Ao fundo, aparece o prédio da prefeitura municipal, uma sólida edificação de dois andares, imponente se comparada às casas que estão em volta, construções baixas com telhados de duas e quatro águas.

Esse prédio, que já não existe, foi também hospital e delegacia de polícia. Não foi construído onde hoje é a sede da municipalidade, mas uns 600 metros antes, aos pés do chamado “morro da Estação”, o qual conduz à tradicional igreja matriz Bom Jesus dos Aflitos. Sua presença conferia à localidade que se formou em torno do rio da Vina — que corre ali perto — status de centro administrativo. Bráulio Pereira, que chegou em Porto Belo no início dos anos 1960 para exercer o ofício de prático de farmácia, montou seu estabelecimento defronte ao antigo paço municipal.

A área, portanto, concentrava o que havia de mais importante em Porto Belo na época. E foi onde floresceu a Vila Mateus. O referido prédio era seu marco de entrada. No terreno de esquina que o abrigava atualmente funciona um lava carros. Dali se inicia uma estreita e discreta rua de terra que, à primeira vista, parece terminar em uma casa de madeira branca e azul. Na verdade, esse é o fim da linha apenas para os veículos. À direita, mais uma ou duas casas podem ser acessadas a pé; à esquerda, há uma concentração de moradias que surpreende quem contava com o término da estrada. Chega-se até elas por meio de uma ponte curva de concreto sobre o rio da Vina — nesse ponto, apenas um córrego. Eis o núcleo inicial da vila, resultado da divisão das terras de José Mateus tão logo seus descendentes foram formando as próprias famílias.

A primeira casa após a ponte, à direita, é uma morada de madeira, pintada em um tom claro de marrom, com um quintal gramado que dá para o córrego. Ali vive a atual moradora mais velha do lugar, Maria Amâncio Mateus, de 87 anos de idade. O sobrenome que é seu atestado de pertencimento não a acompanha desde o batismo, pois entrou para a família quando casou com José Mateus Filho, primogênito do patriarca local. Antes disso, ela era Maria Ivone Amâncio e, apesar de o segundo nome ter ficado de fora da certidão de casamento (assinada há mais de 60 anos), ainda é por ele que as pessoas a conhecem.

Dona Ivone, portanto, nos recebeu com certa surpresa. Algum ruído na comunicação fez com que não esperasse a reportagem naquele dia. Preocupou-se, pois alegou não ter se arrumado à altura, apesar de estar bem-vestida; queria, todavia, ter feito cabelo e maquiagem. Inclusive, durante a entrevista, precisou despachar a manicure que chegava para fazer-lhe as unhas. Enquanto se preparava para a conversa, cruzou facilmente as pernas para amarrar as sapatilhas pretas de couro mole, que calçou no lugar das pantufas que usava.

Nascida em 4 de novembro de 1930, Ivone é a segunda de oito irmãos — quatro homens e quatro mulheres. Ela não sabe precisar o local de nascimento do pai, José Joaquim Amâncio, mas crê que tenha sido Brusque. Por outro lado, está certa de que o avô paterno é natural do bairro Joaia, em Tijucas. A mãe, Angélica Vieira Amâncio, nasceu em Itaipava (que ela confunde com “Itoupava”). Foi nesse bairro de Itajaí que o casal constituiu família e onde alguns de seus filhos — dentre eles, Ivone — nasceram.

Enquanto dona Angélica cuidava da casa e trabalhava como doméstica, seu José era um faz-tudo: assumia jornadas de pedreiro, carpinteiro e desempenhava qualquer outra função que a demanda exigisse. O que tinha de versátil, entretanto, tinha de irrequieto: sofria de uma impaciência que não o deixava sossegar muito tempo no mesmo lugar. “Era tipo cigano, não parava”, recorda dona Ivone.

A inconstância do pai levou a família a se mudar para Criciúma, no sul do Estado. Ivone tinha cinco ou seis anos de idade. Lá, José trabalhou na empresa de um francês chamado Jacques Bhul — que, tempos depois, ele reencontraria em Porto Belo. As boas lembranças que dona Ivone carrega da infância são desse período, quando moravam numa espécie de fazenda e podiam brincar livremente. Dona Angélica deu à luz a uma menina aos sete meses de gravidez, batizada Maria Odete Amâncio, e a pequena foi transformada em boneca pelas irmãs: “A gente brincava com ela”. Caçula da família, Maria Odete morreu recentemente, aos 76 anos de idade. Ivone, aliás, é a única entre os irmãos que ainda vive.


“Meu pai era tipo cigano, não parava”


Como a estabilidade não estivesse no DNA de José Amâncio, sua família voltou para o norte catarinense, dessa vez para Rio do Sul, 150 quilômetros a oeste de Itajaí. Lá, Ivone começou os estudos. A escola era distante e exigia longa caminhada. Ela e os irmãos saíam cedo de casa e só chegavam ao estabelecimento perto do meio-dia. Ali mesmo comiam o almoço que traziam de casa. Ao término da aula, no fim da tarde, faziam o caminho inverso, chegando por volta das 20 horas.

A temporada em Rio do Sul durou pouco. O destino seguinte foi Esteio, cidade distante 25 quilômetros de Porto Alegre. No estado vizinho, os Amâncio encontraram melhores condições de vida, o que aplacou por mais de uma década o desassossego de seu José. Havia emprego para ele e os filhos, além das facilidades habituais de uma cidade maior, com comércio e escola à porta. Ivone, ao completar dezesseis, empregou-se na indústria têxtil: primeiro, numa fábrica de tecidos; depois, numa companhia de fios para tricô chamada Lansul. Com ela, trabalhavam dois irmãos e o pai, como encarregado da oficina. Dona Angélica estava feliz: haviam encontrado um lar.

Até que a comichão de seu marido voltou. Ivone estava com 22 anos e sabia que, ante a palavra do pai, não havia contestação: “A gente tinha que se sujeitar, né?” Sua mãe aceitou o destino, mas não escondeu o pesar: fez toda a viagem de retorno a Santa Catarina com os olhos rasos de lágrimas.

O plano de José era voltar a Itajaí e contar com o auxílio dos irmãos — que viviam em Brusque e tinham boa condição financeira — para se estabelecer. Para sua desilusão, a ajuda não veio e os Amâncio se viram em maus lençóis. Já em idade avançada, ele não conseguia emprego e os filhos tampouco: “Foi o momento mais difícil que nós tivemos”.

A salvação viria através do francês que haviam conhecido em Criciúma. Por essa época, Jacques tinha terras em Porto Belo, na região das Vieiras (há quem ainda chame a área de “Francês”, em alusão ao antigo proprietário). José bateu à porta do gringo e foi convidado a se mudar para Porto Belo e trabalhar como caseiro da fazenda, que não contava com criação nem lavoura. Dona Ivone credita o convite de Jacques mais à sua vontade de ajudar do que a uma real necessidade. A família passou, então, a morar de favor numa casa da propriedade.

Para piorar, o contraste com a cidade de onde saíram era gritante. No início dos anos 1950, Porto Belo se resumia a poucas casas e raros armazéns. Tudo o mais era preciso buscar fora. Carros de mola serviam de transporte até o “encruzo”, onde hoje está a rótula do bairro Perequê. Dali pegavam-se os ônibus para Tijucas, Itajaí ou Florianópolis.

Emprego, então, nem pensar: para as moças, somente em casa de família. Mas José era “meio orgulhoso” e jamais permitiu que suas filhas trabalhassem de empregadas. Sendo assim, o horizonte de Ivone se restringia aos afazeres na fazenda do francês.

Ela descreve a Porto Belo desses tempos como um lugar de calmaria infinita. Para se distrair um pouco, havia bailes modestos e as amizades que construiu. Uma das amigas mais próximas era Celina, a quem visitava com frequência na Vila Mateus. Celina era sobrinha de José Mateus Filho e foi através dela que Ivone o conheceu. João Ailton Amâncio, um dos irmãos de Ivone, também ficou amigo de José e os laços entre as famílias se estreitaram.

Ivone tinha 23 anos e, José, 14 anos mais. Apesar da diferença de idade, os dois engataram um breve namoro. Quatro meses depois, se apresentaram para receber a bênção matrimonial na igreja Bom Jesus dos Aflitos.

Nessa época, Porto Belo pertencia à paróquia São Sebastião, de Tijucas, e não tinha um padre exclusivo: as missas eram celebradas por sacerdotes vindos do município vizinho. Por coincidência, o sacerdote que conduziu a cerimônia era o mesmo que havia celebrado a primeira eucaristia da noiva, quando ela ainda vivia em Criciúma. O reconhecimento veio através da assinatura no termo de casamento: tratava-se de Augusto Zucco (1915-1987), pároco de Tijucas por 45 anos e um dos mais respeitados líderes religiosos da região.

Após o casamento, Augusto Zucco retomou o contato com a família Amâncio (Maria, agora Mateus e já sem o “Ivone”, teve oportunidade de ver as fotos de sua eucaristia, que o padre guardava com zelo em seu acervo). Ele pediu ao velho José que assumisse a presidência da associação da igreja de Porto Belo. A histórica construção carecia de reparos: o altar, feito de madeira, estava caindo aos pedaços, e o piso estava em péssimo estado.

José liderou uma equipe que trabalhou na restauração da capela, mas não viu a conclusão das obras: ele morreria pouco tempo antes, aos 51 anos de idade, num acidente de carro.

Maria e José se instalaram na Vila Mateus, na casa que o marido construiu sobre o terreno que lhe coube de herança (a mesma onde ela mora até hoje). Na época, havia meia dúzia de residências no local, todas pertencentes aos Mateus.

Temperamental, José não era alguém fácil de lidar. Porém, sendo mestre de barco, passava longos períodos pescando no litoral paulista — o que, de certa forma, suavizava o convívio. À esposa, cumpria esperar, encerrada em casa, notícias do próximo retorno.

A primeira filha nasceu em 1956. Chamava-se Márcia e Maria teve-a na maternidade de Tijucas. A menina, no entanto, morreu de meningite. Completaria 61 anos no último dia 12 de julho.

Um ano depois, nascia a segunda filha, Amália. Dessa vez, o jipe do prefeito Neném Matias, único veículo disponível para levar pessoas ao médico quando necessário, estava sem combustível. A solução foi mandar um garoto buscar a parteira que vivia na Enseada Encantada, distante cerca de dois quilômetros. Ela chegou a tempo e deu conta do recado.

Grávida pela terceira vez em 1961, Maria decidiu novamente ter seu filho em casa. Mas não houve tempo de chamar a mulher da Enseada. Por sorte, um prático de farmácia havia recém-chegado à cidade e montava seu gabinete em frente à Prefeitura. Mesmo sem nunca ter realizado um parto, ele assumiu a tarefa. Roselis, então, veio ao mundo pelas mãos de Bráulio Pereira.

A vida de espera, agora, era preenchida pela presença das filhas. Maria costurava para fora e cuidava da educação das meninas. José vinha e logo partia; não demonstrava muito apego pelas crias. “Era um pouco rude”, resume dona Ivone. Em compensação, elas dispunham da absoluta cumplicidade da mãe. Já crescidas, tinham cobertura para dar umas escapadas e se divertir.

Mesmo depois da aposentadoria, José Mateus Filho não abandonou o mar. Adquiriu lancha e redes e continuou pescando pela região. Morreu de câncer aos 77 anos, em 1995.

Tive mais sorte do que ele”, revela dona Ivone, que num período de dez meses passou por maus bocados. Foi em 2002: “Tirei o intestino, o baço, metade do fígado, a vesícula e o apêndice”. Como se não bastasse, depois ela precisou retirar um tumor no seio e ainda sofreu um infarto do miocárdio.

A relação de infortúnios é dita sem ênfase, com um leve sorriso de quem fala sobre coisa sem importância — o que corresponde à personalidade alegre descrita por muitos. Por isso, causa maior surpresa saber que dona Ivone sofre de depressão. Contudo, não trata a doença, pois os remédios são incompatíveis com os outros que já toma para o coração. Assim, o mal fica livre para minar-lhe o ânimo: “Minha vontade é ficar aqui sentada, sozinha”, confessa.

Antes dos problemas de saúde, porém, dona Ivone dançava. Fazia parte de um grupo de idosos que se reunia para encenar a Ratoeira, manifestação típica da cultura do estado, herdada dos açorianos. Consiste na formação de uma ciranda. Enquanto o grupo entoa a cantiga (“Ratoeira bem cansada, faz chorar, faz padecer”), uma pessoa por vez vai ao centro da roda para declamar um verso.

Depois, uma professora vinda de Bombinhas começou a ensinar dança portuguesa para as senhoras. Surgiu, então, o Grupo Alegria, que se apresentava em festas típicas e atrações turísticas. Além de Porto Belo e Bombinhas, o grupo se apresentou em Itajaí, Laguna, Tubarão e Joinville. Mas, em 2015, depois de vinte anos de atividades, o Alegria se viu sem repasses do poder público e deixou de existir.

Atualmente, além de almoçar na casa de Amália, distante cerca de trinta metros da sua, dona Ivone praticamente só sai de casa para ir à igreja recentemente construída no centro da cidade. Ela participa do Apostolado Sagrado Coração de Jesus, uma entidade sem fins lucrativos dedicada à restauração da fé católica e da prática religiosa nas famílias brasileiras, segundo o que se lê em sua apresentação na internet. Na primeira sexta-feira de cada mês, é celebrada a missa dedicada ao Sagrado Coração. Durante o resto do mês, a octogenária vai às missas de quartas e sábados, sempre com a fita vermelha, que identifica os membros do apostolado, em volta do pescoço. Às vezes, gosta de ir à igreja Bom Jesus dos Aflitos à tarde, quando ela está tranquila, para rezar sozinha, em silêncio.

Tombada pelo Patrimônio Histórico Estadual e recentemente restaurada, a igreja matriz voltou a ostentar as cores originais, depois de uma reforma bancada pela paróquia ter descaracterizado a pintura do seu interior. “Está bem do jeitinho que era”, diz, contente.

Dona Ivone tem quatro netos e dois bisnetos. Suas visitas e a companhia do resto da família são motivos de alegria. Saber das novidades, confraternizar, gastar o tempo conversando assim ela passa os dias num reduto de calmaria quase alheio ao movimento da Avenida Governador Celso Ramos, cujo tráfego corre a poucos metros dali. Ainda que mais povoada, um amontoado de casas quase abraçadas e a mesma calçada separando os vizinhos (nem todos ostentando o mesmo sobrenome), a Vila Mateus parece pulsar num ritmo mais lento, ideal para quem já viveu tanto e agora só quer descansar. Cercada pelo carinho de familiares e vizinhos, dona Maria Amâncio Mateus está satisfeita: “Vivemos muito bem, graças a Deus”.

(*) Entrevista concedida em 30 de junho de 2017.

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