“Bom dia, dona Chica. Que entupe mais forte, né?”

“Isso não é entupe não, meu filho, é o pó da farinha dos engenhos de fora!”

O “causo”, contado por seu Arão no domingo do Dia dos Pais, remete ao tempo em que toda esta península era servida de engenhos. Talvez não em número suficiente para alguém confundir o resultado da farinhada com neblina (“entupe”), mas o bastante para prover a população com um item fundamental de sua dieta. Esse conhecimento resultou de uma conjugação de fatores e, principalmente, da necessidade: os açorianos que para cá vieram não conseguiram fazer vingar em solo catarinense o plantio do trigo, principal cultura de suas ilhas. Apelaram, então, à raiz cultivada pelos nativos, agregando ao modo de produção incipiente o conhecimento aplicado nas atafonas de moagem de cereais de sua terra para processar, em maior escala, o alimento. Esse recurso de baixa tecnologia movimentou a economia da região até quase meio século atrás. Hoje em dia, raros engenhos permanecem.

Dois deles estão no Sertão de Santa Luzia, localidade rural distante cerca de 10 quilômetros do centro de Porto Belo e separada deste pela BR-101. Lugar de estradas de chão (que a municipalidade começa a pavimentar), sítios e fazendas, o bairro vem atraindo pequenos e médios negócios e também gente interessada em viver mais perto da natureza. O centro consiste, basicamente, de um campo de futebol — cujo estado do gramado desaconselha uma pelada —, uma quadra de futebol de areia, um bar e cancha de bocha e uma pequena praça, equipada com alguns aparelhos de ginástica. A escola municipal e a capela ficam próximas, o posto de saúde também, mas no sentido contrário. Distante 900 metros desse núcleo urbano, uma pequena creche completa a rede de serviços públicos do Sertão. Em frente desta, mora Alvancir da Silva. É dele um dos dois últimos engenhos de Porto Belo.

Não se trata de uma instalação imponente ou tradicional. Didico, como é conhecido, pediu que a construíssem uns três anos atrás. Contratou um carpinteiro para erguer o barracão (pouco maior do que um rancho), fazer o forno de tijolos, posicionar as polias e cortar, com discutível esmero, os troncos de licurana usados na pesada prensa. À guisa de desculpa, ele conta que gostaria de tê-la feito com as próprias mãos; suas costas, porém, não deixam. Apesar de tudo, o acanhado engenho possui certa magia. E o melhor: ainda está em atividade.

Alvancir viveu todos os seus 61 anos de idade no Sertão; os pais, não. Antônio Francisco da Silva e Erminda Bernes vieram do Amâncio, comunidade para “as bandas da Sorocaba”, conforme ele situa. Eram pequenos produtores rurais que cultivavam terras alheias, arrendatários de um certo Fidélis Antônio Garcia, dono de longo trecho de várzea próximo de onde está o supracitado centro do bairro. Tão logo lhe foi possível, Antônio adquiriu seu próprio pedaço de chão. E mais um outro, onde Didico, único homem de uma prole de cinco filhos, atualmente vive: “Esse aqui ia uns 700 metros lá para baixo, mas uma parte foi vendida”, explica o atual proprietário.

O casal tijuquense plantava para comer. O único item que se prestava ao comércio era a farinha. “Naquele tempo, eles faziam o inverno todo. Eles botavam em paiol, né?”, pede, retoricamente, confirmação Didico, referindo-se ao fato de que, hoje em dia, quando muito, a produção se resume aos meses de março e junho. Diz também que, “quando tinha saúde”, possuiu outro engenho, dentro do qual ele e a esposa Laura trabalhavam, em épocas certas, desde as primeiras horas da madrugada até o cair da noite. Atualmente, quem se interessa pela tarefa são as filhas Sabrina, 30 anos de idade, e Ester, 19. O pai apenas assessora: “Fico só olhando”.

Se o Sertão ainda hoje parece demograficamente enxuto quando comparado com outros bairros do município, na época em que Didico usava calças curtas (ele nasceu em 1958) isto aqui era quase mata virgem. “Às vezes tinha uma pessoa que morava aqui que tinha um engenho de açúcar, de farinha, e lá em cima tinha outro”, exemplifica, esticando os “as” para indicar a distância entre os pontos e o quão esparsos eram os moradores e seus engenhos.

A um desses “lá longe” que ele, ainda guri, foi encaminhado, recrutado pelo tio Raulino Bernes — que, por sinal, possuía uma moenda tocada a roda d’água. Era época de grandes farinhadas, quando vinha gente do Sertão do Trombudo (“um pessoal moreno”) ajudar a raspar mandioca e se processava quase 2 mil quilos do produto em poucas horas. Ao final do trabalho, todos eram recompensados com um bom jantar e voltavam para casa de barriga cheia. Didico, nessa época, ajudava na lida diária, ordenhando vacas e recolhendo ovos no galinheiro. “Não podia ir para os bananais porque era pequeno”. Mais tarde, com uns doze anos, ele conduzia a carroça do pai carregada de goiabas para serem vendidas à fábrica de doces Primor, em Santa Luzia. Cruzava a estrada de chão onde depois construiriam a 101 e sobre a qual passava um ou outro carro por dia — “quando passava”.

Tão logo adquiriu um pouco mais de idade, Alvancir seguiu morro acima — e não somente para cortar banana: “Era madeira, era lenha, era tudo”. Uma “pauleira”, segundo ele classifica, já que era preciso enveredar alguns quilômetros em direção aos fundões da localidade e meter-se no mato com o gado que tiraria de lá, a custo, as toras que eram derrubadas. Depois que casou, Didico viveu uns períodos como servente de pedreiro, depois voltou para a roça, mas o estrago nas costas, derivado das jornadas madeireiras, já estava feito. “De uns três, quatro anos pra cá eu comecei a ficar ruim, a cair no hospital, injeção e coisa. Fui abandonando o serviço, não deu mais”.

Didico tinha 24 anos quando casou com Laura Herondina Ambrósio. Quatro anos mais moça, ela morava justo em frente à casa dele, onde atualmente está a creche, cujo nome na placa é Núcleo de Desenvolvimento Infantil Isa Henning Timmermans. Antes disso, foi o posto de saúde do bairro, batizado com o nome do pai de dona Laura, João Tomaz Ambrósio, responsável por doar o terreno ao município. A unidade básica de saúde mudou-se dali — e levou o nome do patrono consigo.

O namoro começou “de brincadeira, depois foi pegando”, segundo seu Didico. Hoje em dia, é provável que os jovens do bairro morram de tédio nas noites de sábado, salvo se puderem dar uma escapada até Tijucas ou qualquer outro destino mais badalado. No tempo de seus pais, não. Bastava uma gaita, um pandeiro e uma bateria para a coisa pegar fogo no salão do seu Vadinho. Pelo menos, é o que nos faz crer Didico, lembrando da época com um sorriso nostálgico e quase esquecendo a tortura que é ficar sentado em uma cadeira para conceder a entrevista.

“Foi fugido, depois foi casado”, lembra. De acordo com ele, não houve problema, pois a prática de tirar a noiva às escondidas (ou quase) da casa dos futuros sogros já gozava de certa complacência: “Quando era bem mais no tempo antigo, a guria fugia já era um problema, os pais ficavam brabos, ficavam irritados. Depois, foi maneirando”, justifica.

Na ocasião, Didico vivia em uma casa quase anexa à da mãe, já viúva. Poucos anos antes, seu Antônio foi atropelado sobre uma ponte enquanto pedalava; morreu instantaneamente. Dona Erminda viveria até os 95 anos — e talvez vivesse ainda mais, não fosse um acidente banal: “Ela pisou o pé, em seguida não deu tempo, pegou uma bactéria, puft!” Isso aconteceu faz uns seis anos.

A vida do casal seguiu no ritmo da lavoura e, no caso do marido, da procura por lenha. A novidade foi a construção de um engenho nos fundos. Uma quantia irrisória (18 cruzeiros ou 18 contos, o lavrador não tem certeza) foi suficiente para adquirir o equipamento de Raulino, o tio de Didico. Tratava-se da estrutura do mesmo engenho que aquele possuiu em sua propriedade, só que não mais tocada pela roda d’água. O próprio Raulino já tinha migrado para um motor a óleo e depois, quando a eletricidade finalmente chegou ao bairro, coisa de uns trinta anos atrás, um motor elétrico. O tempo romântico dos engenhos movidos pela força do gado havia passado.

Não muito maior do que o atual, o primeiro engenho de Didico teve produção intensa. Como muita gente ainda plantava mandioca no bairro, não faltava matéria-prima — e nem mão de obra para ajudar na tarefa. Além de familiares, vizinhos e amigos acorriam ao local para auxiliar na raspagem da raiz e, ao final de todo o processo, conquistar o seu quinhão. E ainda sobrava farinha, que era armazenada em paiol ou dada de comer aos porcos.

A farinhada segue uma série de etapas. A primeira consiste no transporte e na raspagem da mandioca que, ato contínuo, é submersa e lavada em um tanque de água. O próximo passo é a moagem. O produto é recolhido do sevador e colocado em sacos ou tipitis e submetido à prensa, com o objetivo de retirar o que sobrou de água. Quando estiver bem seco, será peneirado e irá ao forno a lenha, onde é convertido em farinha ou algum subproduto, como o beiju.

“Se o cara cuidar do fogo, é meia hora, 40 minutos, uma fornada”, explica seu Didico, estimando em meio alqueire (onze quilos) a produção de um forno como o seu. Ele acrescenta ainda que, diferente de alguns outros produtores, costumava deixar a mandioca moída descansar uma noite inteira “para escorrer a água e ficar o polvilho coladinho na massa”. No dia seguinte, pela manhã, ela era submetida à prensa e, no outro, levada ao forno. “Dava um monte de processo”.

Quando um dos fusos da prensa estragou e o cobre do forno apresentou furos, seu Didico se desfez de tudo. Vendeu para o representante de um museu, que ele não sabe se de Joinville ou Barra Velha. E sua história com esse conhecimento tradicional bem que poderia parar por aí, não tivesse um amigo colocado-lhe uma pulga atrás da orelha.

O sujeito, Zé Henrique, veio de Tijucas para uma visita. Conversa vai, conversa vem, Didico conjecturou: “A gente bem que podia fazer uma massa pra nós”. Zé logo se animou, garantiu o fuso que a prensa necessitaria e falou que um tal Mandoca tinha outros implementos que poderia dispor. E foi assim que a coisa se deu.

O que aconteceu depois, já sabemos. Embora não se fale mais em grandes farinhadas por aqui, a prática se sustenta, ainda que de forma extremamente tímida, uma pequena fornada por vez. Além das filhas, alguns vizinhos ajudam a manter em funcionamento as últimas engrenagens da tradição (os dois filhos homens de Didico não se interessam). O que se produz dá para o gasto e sobra um pouquinho para quem quiser vir buscar. Quem come, aprova: “A turma gosta muito, né? Tem nego aqui que não compra mais da Edna [marca tijucana de farinha de mandioca bem conhecida na região], só pega dessa”.

Verdade seja dita, Didico já não vê tanta graça nisso. Mas não é porque desgostou de observar a névoa branca levantar enquanto o motor elétrico faz o coração de couro, madeira e metal de seu pequeno engenho pulsar. Não há dúvida de que aquilo o alegra — o problema está nas terríveis dores que sente e o impedem de realizar o menor esforço que seja. Mesmo assim, quando a turma se junta e coloca o engenho para trabalhar, ele fica por perto, monitorando. Sabe pelo cheiro quando a farinha está no ponto. Suas aprendizes também já dominaram a técnica, e isso o deixa satisfeito.

Além do mais, o movimento garante distração e faz correr as horas — as quais ele tem de sobra. Curioso paradoxo, visto que os engenhos nos falam de um tempo manso, compassado no ritmo de uma bolandeira que gira suave enquanto os primeiros raios da manhã, vazando das frestas nas paredes, iluminam as partículas de poeira em suspensão. De qualquer forma, seu Didico não tem pressa — nem tem por quê. Assim, uma nova fornada só no ano que vem. O importante é que, aqui no Sertão, a tradição está mantida.

(*) Entrevista concedida em 10 de agosto de 2019.

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