Jardim Dourado, sábado, nove horas da manhã. Perto de onde a Abdenago Correia e a Pedro Paulo dos Santos se encontram, mora dona Jaci Maria dos Santos. Ela é uma senhora miúda, de pele e olhos negros, aureolados de um incerto azul, condição de quem já viveu muito. Com efeito, faz pouquinho que esta senhora completou 83 anos de idade, bem disfarçados por uma vivacidade que parece fazer pouco-caso das próprias queixas. Verdade seja dita, nas últimas semanas ela andou enferma, coisa que raramente lhe acontece. Voltou da casa de uma filha que vive em Joinville assim, alquebrada. Acredita ser em razão daquela doença de nome difícil de acertar: chikungunya. A suposição dá certo calafrio, uma vez que, algumas para lá, onde Porto Belo e a Meia Praia dividem as margens do rio Perequê, a dengue campeia. Boletim da Diretoria Estadual de Vigilância Epidemiológica do Estado (Dive-SC) divulgado há dois dias colocou o município deste lado, com 65 casos confirmados, em situação de epidemia — classificação que Itapema, com 428 casos, detém há algum tempo. A enormidade de mato em volta e o entulho amontoado em um trecho impedido da Pedro Paulo dos Santos (que no Google Maps aparece com o nome de Maria Clara de Jesus) não amenizam o desconforto — muito menos o zunir dos mosquitos que voejam pelas plantas de dona Jaci em formação de ataque. Mesmo assim, respiramos fundo, apertamos o play e seguimos em frente.

Se você nunca andou por essas bandas, saiba que a Abdenago é uma rua larga, porém de terra em seu trecho final, que tem início na avenida Colombo Machado Salles, uma das principais vias do bairro Perequê, e término ali mesmo, na Pedro Paulo (ou Maria Clara). Passa nos fundos da escola municipal Olinda Peixoto, com seus 680 alunos. Um projeto de loteamento e de extensão elétrica deverá mudar o perfil da localidade em um futuro talvez próximo. De momento, é uma área pouco urbanizada, com duas grandes quadras cobertas de vegetação bem defronte às casas enfileiradas na rua de dona Jaci (cujo nome homenageia seu falecido marido). Na sua memória, porém, o lugar já foi muito mais inóspito: “Era mato, viu?”

ÓRFÃ DE MÃE, ABANDONADA PELO PAI
Ela se refere ao ano de 1984. Jaci retornava a Porto Belo após tocar a vida durante décadas em Joinville. Foi para a “Cidade dos Príncipes” casada e a convite de Marcelino José Luiz do Nascimento, que até então não havia sido presente. Jaci era só uma criança quando seu pai abandonou a esposa Florentina Gervásia e os cinco filhos do casal. Sua mãe não teve muito tempo para lamentar, pois morreu precocemente, aos 27 anos, por motivo que dona Jaci não sabe dizer. Terceira filha a nascer, ela tinha apenas quatro anos de idade na ocasião.

Florentina nascera no Sertão do Trombudo, hoje pertencente a Itapema, e Marcelino, em Santa Luzia. Ali casaram, tiveram os filhos e viveram por pouco tempo, mudando-se em seguida para Coqueiros, na região continental de Florianópolis. Espremido entre a Via Expressa e o mar, o bairro hoje integra a densamente ocupada região metropolitana da capital do Estado. Na década de 1940, quando a família de Jaci chegou, Coqueiros “era apenas um caminho”.

Àquela época, portanto, a mudança foi uma aventura. Não seria a única no currículo de Marcelino. Depois de um tempo em Coqueiros, ele arranjou emprego de guarda dos destroços do navio Lily, que naufragara em outubro de 1957, ao se chocar contra a Ilha das Galés em uma noite de forte nevoeiro. Para assumir o posto, ele teve de viver sozinho naquela porção de terra cercada de mar, hoje parte da Reserva Biológica Marinha do Arvoredo. Mais tarde, radicou-se em Joinville, onde serviu como operário braçal da prefeitura. Foi gari durante muito tempo, depois zelador do cemitério Nossa Senhora de Fátima, onde hoje repousa. Marcelino morreu em 1992, após expirar aos cuidados das filhas — com as quais, enfim, se conciliou.

No início da década de 1940, quando se viram órfãos de mãe e sem o amparo do pai, os filhos foram trazidos de volta a Santa Luzia, onde ficaram aos cuidados de tios e avós. Evarista, irmã de Marcelino, e o esposo Fabiano, padrinhos de Jaci, assumiram a criação da menina. O casal vivia num lugar cercado de mato, próximo a uma cachoeira, aos pés do morro que separa a localidade das praias isoladas da Costeira de Zimbros: “Era um deserto, meu filho”, descreve.

Os familiares viviam de lavrar a terra. O pouco dinheiro que se via era da venda de parte da produção do cafezal de Fabiano, ocasião em que se podia comprar alguns víveres na venda de Antônio Francisco Peixoto, que foi prefeito de Porto Belo nos períodos de 1938 a 1941 e de 1947 a 1951 e cujo pai, Francisco Peixoto, possuía engenho e empregava a mão de obra dos irmãos de criação de Jaci (as ruínas da chamada “Casa Branca” são um testemunho da era de ouro da família Peixoto). O tio era um homem trabalhador, razão pela qual, apesar da escassez daqueles tempos, conseguiu criar bem os filhos e a sobrinha, que também ajudava na lida. “Não tinha escolha, era tudo pequeninho e já ia apanhar café”.

E a vida seguiu nesse ritmo até que, aos dezoito anos, Jaci se casou. Conheceu Pedro Paulo dos Santos, moço de Camboriú, dos encontros de família (uma tia dela era casada com um tio dele). Juntaram suas coisas e seguiram para a localidade que ela identifica como Garcia, onde o rapaz morava. Quatro anos mais velho, Pedro Paulo trabalhava nos cafezais e bananais da região. No ano seguinte, 1955, a esposa teve o primeiro filho e Marcelino reapareceu.

JOINVILLE
Figura proeminente na infância de Jaci, José Luiz do Nascimento tinha quase 106 anos de idade quando morreu. Afável, seu avô paterno revogava a norma vigente de que criança não podia se imiscuir em conversas de adulto, pois gostava de contar causos e fazer brincadeiras. Também dizia que era ex-escravo e que duas de suas filhas foram igualmente cativas. Trabalhou até quase o fim da vida e era respeitado pela comunidade, que o chamava “Tio Zé Crioulo”.

Quando soube da morte do avô, Jaci lamentou não poder comparecer ao velório, devido ao nascimento do primeiro filho (que morreria meses depois). Mas seu marido foi e conheceu o sogro, que sugeriu que fossem com ele morar em Joinville. A mudança se concretizou e foi, na opinião de dona Jaci, muito gratificante: o pai era benquisto na cidade e o marido conseguiu emprego em um moinho de trigo, depois se tornou operário de fundição. Ela bem que tentou arranjar ocupação no comércio, mas Pedro vivia sabotando suas intenções. O motivo? “Ele era ciumento demais”. A controvérsia não impediu a família de prosperar na Vila Comasa, posteriormente bairro Costa e Silva — em referência a uma visita feita pelo marechal em 1977. Compraram um lote em um ponto comercial, estabeleceram mercearia e peixaria. Até hoje dona Jaci tem saudades daquele tempo: “Nem fui mais lá, que me dói”.

Com Marcelino como ponto de atração, outros irmãos também acabaram seguindo para a região norte. Mas, nas férias, Pedro e Jaci faziam o caminho de volta. Uma tia tinha casa nas proximidades do rio Perequê e os filhos (o casal teve doze, mas apenas sete passaram dos primeiros anos de vida) adoravam a beira-mar. Por comodidade, resolveram comprar um terreno nas imediações. Adquiriram-no de Pedro Leite. “Depois nós vendemos e compramos isso aqui”. Em 1986, o Jardim Dourado — que talvez nem tivesse esse nome ainda — “era bem feio”. Havia quatro ou cinco moradores e um matagal que chegava quase até a praia. Mesmo assim, a residência de veraneio se tornou morada definitiva. A renda era obtida do aluguel do que ficou em Joinville, mas, com o tempo e após um retorno infrutífero, foi tudo vendido (por 40 mil cruzeiros — “um bom dinheiro para pobre”). Pedro Paulo comprou duas vacas e uma carroça, com a qual vendia peixe. Três dos filhos já eram casados quando tudo isso ocorreu e seguiram o próprio caminho. Hoje, apenas Lori, 49 anos, vive vizinha de sua mãe.

BENZEDEIRA
Conforme o Jardim Dourado crescia, dona Jaci ganhava notoriedade. Primeiro, porque era dela a casa usada como creche municipal do bairro. Depois, porque ela benzia as pessoas. Aliás, benze até hoje. “O povo diz que faz bem, então eu benzo”. Esse dom foi algo que ela descobriu por si própria, visto que ninguém lhe ensinou nem havia tradição na família (embora sua sogra também benzesse). O método, simples, consiste em ler um trecho da Bíblia e pedir a Deus pela cura. E funciona, a julgar pela fama adquirida: “Vem muita gente de fora. É a boca do povo, a notícia vai longe”.

Pedro Paulo — que também não gostava que a esposa exercitasse esse talento — faleceu em 2 de abril de 2005, mesmo dia da morte de João Paulo, o papa. Tinha 72 anos de idade e haviam comemorado, no ano anterior, bodas de ouro. Morreu em decorrência do cigarro. “Será que foi?”, dona Jaci pergunta, incerta. O fato é que o esposo queimava duas carteiras por dia. De quebra, já levantava mais copos do que o recomendável. Como a viúva repetiu algumas vezes ao longo da entrevista, “a vida é assim”.

Essa resignação é típica de quem desde cedo enfrentou dificuldades, mas reconhece os pequenos presentes que a existência larga pelo caminho: uma família amorosa, uma companhia de muitos anos, o carinho dos amigos e o reconhecimento de estranhos. Tudo isso dona Jaci teve, a maior parte ainda desfruta, seja solitariamente em meio ao seu canteiro de ervas ou à beira do fogão a lenha, seja mimando os netos. “Eu gosto de viver assim, bem sossegada. E sozinha eu nunca estou. Tem os netos e bisnetos, né? Ela [Lori] mora aqui perto e a gente se dá muito bem” (realmente, a filha mantém-se perto e vigilante: pouco antes de terminarmos a conversa, ela aparece para indagar sobre nossa presença ali. Desconfiada, questiona: “Cadê a credencial?”).

Além do mais, dona Jaci tem uma rotina relativamente movimentada. Volta e meia vai a São Paulo ou ao Paraná, visitar parentes. “O povo se admira”, ri. Nestas férias de julho pretende ir a Londrina, onde mora uma neta, filha do seu rebento mais velho, que a tem como mãe (a verdadeira mãe da menina faleceu quando ela tinha dois anos e pouco, vítima de câncer): “Ela é muito caprichosa”, elogia.

Os demais filhos também estão sempre por perto. Alguns, inclusive, têm casas quase coladas à sua. Para a neta de Zé Crioulo, a família é um valor muito importante: “Ela tem que estar unida”. Assim como foi com seu avô e também com seu pai — que só descobriu essa verdade depois de muito tropeço —, é dona Jaci a argamassa que garante essa união. Que continue sendo por muito tempo é o que todos aqui desejam. “Até quando Deus determinar”, sentencia — para depois, com sua risada musical, acrescentar: “Estou ganhando de lambuja já. Tem um tanto que não chega até os 80!”

A vida é assim.

(*) Entrevista concedida em 15 de junho de 2019.

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