Faz uns três anos, o percurso de quase um quilômetro que margeia a orla entre a chamada praia do Jet Ski e a prainha do saco da Encantada recebeu da municipalidade uma espécie de calçadão, com passeio, ciclovia, iluminação pública e área de estacionamento. Como consequência, Porto Belo ganhou um dos mais simpáticos sítios de apreciação do pôr do sol. Não é incomum, ao final do dia, vermos pessoas caminhando pelo local com seus cães, correndo, tirando selfies ou simplesmente observando o espetáculo que se descortina lá do outro lado da baía.

Ao fim do trajeto de pavers há um curto caminho de chão rente à margem da rodovia que segue rumo a Bombas. Nesse ponto, o asfalto faz uma ligeira curva e, à esquerda, o terreno inclina-se em direção à pequena enseada parcialmente escondida pelas árvores. Quando a maré baixa, a areia escura da prainha avança alguns metros em direção ao cais da Pesqueira Pioneira da Costa. Do terraço nos fundos de sua casa, Kalil Belem Sphair, de 81 anos de idade, domina com a vista toda a paisagem.

Se quiséssemos traduzir numa imagem a trajetória de seu Kalil, estaríamos tentados a imaginá-lo acompanhando o desenrolar de uma estrada infindável. Contudo, essa interpretação não faria muito sentido às pessoas de Porto Belo que se acostumaram a vê-lo atrás do balcão de seu bar, atendendo a seus atualmente escassos clientes. No entanto, antes que fincasse sólidas raízes no terreno que separa a Governador Celso Ramos do saco da Encantada, apartado da Pioneira pelo rio que corre às costas de sua propriedade e a poucos metros do calçadão da orla, esse filho de libanês vivia em constante mobilidade.

Muito antes de chegar aqui, no início dos anos 1980, Kalil repetiu o ânimo cigano de seu pai.

SALIM

Aos dezesseis anos de idade, Salim Belem deixou o Líbano — então parte do Império Otomano e cuja economia, baseada na seda, colapsou em razão da 1ª Guerra Mundial — e acompanhou as levas de imigrantes sírios e libaneses que desembarcaram no Rio de Janeiro entre as décadas de 1920 e 1930. Na antiga capital federal, o imigrante conheceu a futura esposa, Maria, e iniciou a vida de comerciante. Depois de um tempo, se transferiu para Curitiba (PR) e, a seguir, para Mafra. Na cidade do planalto norte-catarinense nasceu, em 12 de agosto de 1936, Kalil, décimo filho de uma prole de treze irmãos.

Enquanto Kalil e os irmãos cresciam, Salim não guardava pouso. Fazendo jus ao proverbial tino comercial de seus antepassados fenícios, mascateava à margem dos trabalhos de construção da ferrovia que cortava a região Centro-oeste em direção ao Sul do país, no trecho entre Mafra e Vacaria (RS). A obra era conduzida pelo 2° Batalhão Ferroviário (Batalhão Mauá), sediado na cidade de Rio Negro (PR). Sempre que os soldados avançavam na colocação dos trilhos, estabelecendo um novo acampamento, Salim “fazia a bodega dele e ia acompanhando”. A família, entretanto, ele fixou em Curitibanos, no coração do Estado.

“Meu pai fazia a bodega dele e ia acompanhando os soldados”

O filho do libanês era “piazotão” ainda quando Carime, irmã um ano mais nova, sofreu profundas queimaduras em um acidente com uma chapa de fogão a lenha. Ela tinha entre oito e nove anos de idade e foi socorrida por uma tia, que imergiu o corpo ardente nas águas de um lago próximo na tentativa de aliviar-lhe a dor. Carime sobreviveu, mas perdeu o movimento das pernas. Salim fez o possível, levou a filha a médicos e curandeiros, mas ela jamais voltou a andar. “Foi sofrido”, lembra Kalil, que acompanhava o pai nessas peregrinações e ajudava carregando a menina nas costas. Apesar das agruras, Carime tocou a vida, auxiliando no esforço doméstico embalando os doces que eram vendidos pelo pai. Aos 80 anos de idade, vive em Mafra, dirige o próprio carro e é um atuante cabo eleitoral do filho, Wellington Roberto Bielecki, atual prefeito da cidade.

Kalil tinha por volta de dezesseis anos quando Salim faleceu. Na época, ele já ajudava nas despesas de casa, trabalhando como ajudante de motorista. Cinco ou seis anos depois, dona Maria também se foi. O espólio da família foi repartido entre os filhos e cada um seguiu seu caminho. O dele foi, no início, a boleia de um caminhão, transportando madeira. Não demorou, porém, e estava assumindo o ofício do pai.

JANDIRA

Uma das primeiras experiências foi em parceria com um dos irmãos, que abriu uma mercearia nas imediações do Túnel 18 da estrada de ferro, próximo a São Cristóvão do Sul, e deu para Kalil administrar. Havia muitos militares na região, o que motivou o empreendimento. Além disso, tinha uma “fazendola” perto, cujo dono criava algumas cabeças de gado. E havia uma moça, Jandira Bastos, por quem o rapaz se interessou.

Daí para o casamento — ao menos na narrativa sintética de seu Kalil —, foi um pulo. Ele não sabe precisar a data, apenas que o casal está “em lida” há 58 anos. Isso nos dá 1960 como ano provável. O comerciante tinha, portanto, 23 anos de idade quando subiu ao altar. Dona Jandira, possivelmente dezoito (hoje ela tem 76). Desde então, levam uma vida tranquila e cúmplice, mas de muito trabalho (de sangue português e alemão, dona Jandira tem uma explicação para a boa comunhão dos dois: “Me fazia meio de surda às vezes”).

Quando os filhos chegaram, o casal decidiu se estabelecer no centro de Curitibanos, de modo que pudessem dar educação aos pequenos. Para se manter, abriram um restaurante. Kalil também adquiriu uma caçamba e iniciou um negócio de venda de grama, que ele plantava às margens da recém-construída rodovia SC-470, próximo ao local em que ela cruzava a BR-116.

Mas parecia que ele fora contagiado pela febre do pai, e os endereços se sucederam: uns anos em Mafra, logo após o casamento, novamente Curitibanos e, depois, Santa Cecília, ainda no planalto serrano, onde adquiriram uma chácara e nasceu Joceli (os outros filhos são José, Jânio e Jean Kalil). Sucederam-se também os negócios: restaurante, bolicho, cancha de bocha e posto de lavação.

NA ENSEADA

Esse modelo de vida cigano os conduziu a um destino totalmente diferente em meados dos anos 1980. A convite de um cunhado de Jandira, a família Belém passou uma temporada em Porto Belo. José dos Santos Dias vivia na Enseada Encantada (ou, simplesmente, “Saco”) e acomodou seus hóspedes na casa que possuía defronte à pequena baía.

Kalil gostou do lugar, radicalmente diferente das paisagens que conhecia no planalto catarinense. Viu ainda que a proximidade de cidades como Itajaí e Florianópolis permitiria aos filhos seguir com os estudos, caso assim o desejassem. Resolveu alugar a casa por um ano inteiro e tocar o bar que José dispunha. Passado um ano e meio, propôs comprar a propriedade, iniciando uma arrastada negociação com o concunhado, que a todo momento aumentava o preço do imóvel.

Quando finalmente chegaram a um acordo, Kalil não perdeu tempo. Foi com o pai de José à Secretaria de Patrimônio da União para formalizar a posse. Quanto ao vendedor, tão logo colocou a mão no dinheiro, tratou de depositar tudo no banco. Por azar, praticamente no dia seguinte foi anunciado o Plano Collor, que confiscou todas as aplicações em poupança da população. Foi a desforra de Kalil: “Eu dava risada da cara dele”, alega, contente.

Novamente à beira de uma rodovia (desta vez, a SC-412 — atual Governador Celso Ramos —, na época ainda sem asfalto), mas a poucos metros do mar, o filho de Salim construiu um sobrado de alvenaria no lugar da antiga casa de madeira e abriu as portas do renovado bar e restaurante Enseada a uma clientela bastante expressiva, formada pelos funcionários da unidade de processamento de pescados Pioneira da Costa (antiga Induspesca) e veranistas que visitavam a região. “Era movimento, viu?”

Se os negócios iam bem, a acolhida entre os reticentes moradores locais não foi, no princípio, um mar de rosas. Havia a questão das melhorias que Kalil implementou na propriedade, situada em área de marinha. Além disso, o comerciante ergueu um quiosque a poucos metros do bar para aproveitar o movimento que a prainha proporcionava. Tocou o lugar durante duas ou três temporadas, mas botou o anexo abaixo por causa da chiadeira.

“Um me logra ali, outro me logra aqui, daqui a pouco eu logro outro lá e assim vai”

O problema mais sério, porém, aconteceu logo no primeiro mês: o recém-chegado se envolveu numa tradicional briga de bar com um dos frequentadores do local, um morador que, Kalil acredita, havia manifestado interesse pela propriedade e se ressentia de ela ter sido vendida ao forasteiro. O entrevero teve direito a estocadas de tacos de sinuca e terminou com o sujeito estatelado após um golpe certeiro desferido pelo dono do estabelecimento. A polícia apareceu, Kalil pagou a conta do hospital e não houve maiores consequências. “Só isso aí que aconteceu, mais nada”, assegura.

Mas os bons tempos de clientela farta se foram. Com a emancipação de Bombinhas, em 1992, veio o asfalto e, no decorrer de uma década, os engarrafamentos e um trânsito constante de caminhões em razão do acelerado processo de urbanização do município vizinho (“virou essa BR infernal”, lamenta dona Jandira). Sobraram alguns gatos pingados ocasionalmente apoiados no velho balcão: “Um me logra ali, outro me logra aqui, daqui a pouco eu logro outro lá e assim vai”, explica o astuto comerciante.

Por outro lado, os filhos estão bem encaminhados e a idade avançada sugere um descanso. Seu Kalil limitou os habituais passeios pela orla por culpa de uma cirurgia recente e ainda precisa tratar de uma catarata. Por tudo isso, ele tem sido instado pela família a fechar as portas e sossegar. Mas o patriarca bate o pé: “Se parar, a gente morre”, raciocina. Assim, o comerciante aposentado segue a rotina, recebendo os frequentadores no seu ambiente de trabalho de aspecto acidentalmente retrô, o qual ainda abriga a peixaria do filho José. Pode não ser o mais badalado endereço da cidade, mas com certeza é um dos mais tradicionais. E, se depender da obstinação de Kalil Belem Sphair, vai se manter assim por mais algum tempo.

(*) Entrevista concedida em 14 de maio de 2018.

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