Distante duas quadras da avenida principal e deslocada do centro comercial da cidade, existe uma oficina de sonhos. Um passante distraído talvez nem repare naquela construção de esquina, entre as ruas Alda Tavares Matias e Dr. Orlando Pereira. O muro alto na lateral, semiencoberto pela vegetação – inclusive um pé de jambolão, que neste começo de fevereiro esparrama seus frutos na calçada – ajuda na camuflagem. Mas um detalhe captura o olhar mais atento: uma caixa decorada, com porta de vidro, guarda no seu interior vários livros. Fixada no muro ao lado do portão, essa biblioteca de rua é mais uma das ideias dos moradores deste endereço.

Quem conhece o lugar, sabe que há uma atmosfera diferente para além do umbral. Ao entrar, será recebido pela certeza de Cecília Meireles, escrita num dos caibros de eucalipto que sustentam o rústico ateliê: “A vida só é possível reinventada”. Nesta tarde de sábado de carnaval, o sol invade o ambiente e ilumina a infinidade de detalhes que compõem o espaço: uma caixa de teatro lambe-lambe, uma mesa de trabalho com resquícios das últimas produções, são franciscos de Assis acompanhados de seus inseparáveis animaizinhos, figuras de pescadores em pequenos barcos ou segurando seus anzóis, incontáveis casinhas açorianas formando pequenas cidades, personagens do folclore regional, figuras sacras inacabadas descansando no fogão a lenha – tudo em argila, a especialidade do Espaço Bonequiando.

E tudo aqui tem as mãos – e o coração – de Patrícia Estivallet. Professora e artesã (ela prefere chamar-se “bonequeira”), 51 anos de idade, Patrícia impregnou de arte o seu entorno a ponto de cooptar os seus: Johannes, o primogênito, tornou-se um talentoso artífice do barro e é quem toca atualmente o ateliê, ao passo que o marido dela, Miguel, maneja com gosto a roda de oleiro. Natural do Rio Grande do Sul, a família fincou raízes em Porto Belo há quinze anos – segundo ela, “a escolha mais bem feita que a gente fez na vida”.

Natural de Tupanciretã, distante 54 quilômetros de Cruz Alta, na Região das Missões, Patrícia passou a maior parte da infância (e a juventude) 167 quilômetros mais a nordeste, em Passo Fundo. A mudança de ares ocorreu quando ela tinha cinco anos de idade: o pai era pecuarista e foi lidar na fazenda de seus avós, enquanto a mãe, professora de português, cuidava dela e do irmão na cidade. Durante a semana, seu habitat era o estabelecimento de ensino onde dona Anna lecionava. Nos fins de semana – assim como nas férias – o destino era o campo, território de seu Francisco. As grandes referências de Patrícia são, portanto, a zona rural e a escola. A vida solta, com brincadeiras ao ar livre, o contato com os animais e a natureza – o “cheiro de fazenda” – permanecem frescos na memória. “É do que sinto falta aqui, daquele espaço rural em que sempre convivemos. Minha infância foi toda voltada para isso”, observa.

Foi nesse contexto de liberdade que a gaúcha desenvolveu suas “manualidades”. Seu Zeferino, guasqueiro empregado da fazenda, sempre arrumava algumas tiras de couro cru para as crianças brincarem. Criar o brinquedo, usar a imaginação, sempre foi uma prerrogativa (como o foi, a seu tempo, para qualquer um que tenha mais de quarenta). Além disso, a avó materna, uma sábia de mãos hábeis, a escolheu como aprendiz: “Toda minha manualidade vem dela. Ela bordava, pintava, fazia bonecas”, explica. Colaborou também o caráter irrequieto da menina. Como tivesse “bicho-carpinteiro”, fosse uma criança “rueira”, os pais sempre a matriculavam em algum curso para que sossegasse: tricô, crochê, artesanato. Criava-se, desse modo, as bases da futura artesã. Haveria, entretanto, algumas outras experiências no caminho.

O magistério foi uma delas. Acostumada ao ambiente escolar, Patrícia seguiu os passos da mãe e se tornou professora ao fim do ensino médio. Foi dar aulas na Escola Estadual Fagundes dos Reis, a mesma onde dona Anna lecionou (quase uma extensão de seu lar), para os alunos do ensino fundamental. Quando ingressou no ensino superior, porém, desviou-se para o direito – uma escolha que ela atribui à “curiosidade pelo conhecimento” e certa pressão familiar. Conquistado o canudo, exerceu a profissão durante quase seis anos. Trabalhava em um escritório de advocacia, na área civil. Mas a burocracia em demasia e as questões hierárquicas da Justiça a incomodavam. Então, sentiu-se farta daquilo: “Adoeci”.

No período em que terminava o magistério, Patrícia viveu um romance que resultou em gravidez e casamento. Tinha dezessete anos quando Johannes nasceu. O casamento não durou, tampouco deixou feridas: “Não deu certo, mas também não criou traumas. Éramos amigos e continuamos amigos até hoje”, resume. A circunstância, na verdade, permitiu que ela estabelecesse com o primeiro filho uma relação de cumplicidade que permanece firme até hoje: “Somos muito parceiros”.

Poucos anos depois, um rosto familiar ressurge: Patrícia e Miguel se conheciam desde crianças. Amigos em comum os reaproximam. Das afinidades surge o afeto, e o estudante de engenharia civil e a futura advogada iniciam uma relação, segundo ela, “construída de forma mais pacífica”. A natureza desse relacionamento sem sobressaltos se mostrou mais perene: o casal vive junto, em comunhão com os filhos (Joahnnes e, depois, Aline) e os filhos destes há mais de trinta anos.

Quando se sentiu desencantada pelos códigos legais, Patrícia largou o escritório de advocacia e passou a prestar assessoria jurídica para a coordenação regional de educação. Era um dos primeiros passos para viabilizar duas mudanças radicais: trabalhar exclusivamente com arte e deixar o Rio Grande do Sul. O litoral catarinense já era um destino de veraneio habitual da família Amantino. Desde 1975 que seus pais, adeptos do campismo, encerravam as férias de verão em Bombinhas. Com isso, os planos do casal apontaram para este ponto do mapa. Durante três anos, Patrícia e Miguel fizeram cálculos e estudaram as possibilidades. A questão principal era decidir em qual cidade morar: até consideraram Laguna, no litoral sul, mas ela temia “morrer de tédio” por lá. Cogitaram Bombinhas, mas, à época, parecia “muito triste no inverno”. Porto Belo, no entanto, possuía um caráter mais urbano e não era longe dos grandes centros. Despontava como a escolha ideal.

Assim, em 2000, os Estivallet iniciaram sua jornada rumo ao sonho de viver no litoral. Miguel ainda permaneceria mais um ano no Sul, resolvendo seus compromissos de representante comercial, enquanto Patrícia e os filhos lidavam com a rotina na nova cidade, morando de aluguel. Ela retomou sua carreira no magistério, assumindo aulas no Colégio Ana Luiza. Mais tarde, a convite da então secretária municipal de cultura, Cristiani de Jesus, começaria a ministrar oficinas de cerâmica e costura criativa – uma reconexão com os fazeres da infância. Há três anos, Patrícia passou a lecionar também na Escola Especial Ensina-me a Viver, da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Porto Belo.


“Uma criança que cresce perto da arte vai ser um adulto melhor”


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Uma coisa no novo lar, porém, a intrigava: habituada ao zelo dos gaúchos pela tradição, estranhou não encontrar evidências dessa mesma preocupação na comunidade local. Até que, em 2001, tem seu primeiro contato com a brincadeira do “boi de pau”, por meio do Instituto Boimamão, de Bombinhas. Testemunha, maravilhada, a fantástica procissão das cruzes, na noite da Sexta-feira Santa. Também neste ano, durante a oitava edição da Festa da Cultura Açoriana de Santa Catarina (Açor), em São José, na Grande Florianópolis, conhece o trabalho de dona Etelvina e outras mestres na arte de confeccionar bonecas. E encanta-se pela cerâmica figurativa catarinense.

A nova realidade e as possibilidades artísticas da recém-descoberta tradição do Estado impulsionam seu desejo de viver da arte. O casal então adquire o imóvel onde atualmente vive e, com esforço próprio e capricho – como é esperado de um bom artesão –, ergue as paredes que há doze anos são a materialização dessa ambição: o Espaço Bonequiando. Um lugar para dar forma ao barro, fomentar a arte, promover encontros – criar. Um local para dar vazão à produção, mas principalmente um endereço de porta permanentemente aberta à cultura. Nos últimos anos, tem sido palco de bazares de inverno, quando artífices de várias especialidades da região se reúnem para trocar experiências, mostrar suas criações e promover “escambos”, de saraus envolvendo música e manifestações como o terno de Reis e o boi de mamão, e oficinas de cerâmica, quando Patrícia transfere aos pequenos o prazer de dar vida ao barro.

No momento, as aulas estão paradas, mas a ceramista tem planos de retomar. Iniciar as crianças na arte é um delicioso aprendizado, pois elas estão sempre propensas ao experimentalismo e ao encantamento. Não há entraves, nem preconceitos: um garoto pode muito bem querer esculpir um hipopótamo (como já ocorreu), coisa que talvez jamais passasse pela cabeça de um adulto, mais ligado a formalismos e temeroso do que venha a ser inadequado. Mais importante, o contato com a arte é transformador: “Uma criança que cresce perto da arte vai ser um adulto melhor. É na arte que tu convive com o diferente”, avalia Patrícia.

Porém – e isso não surpreende ninguém –, viver de arte é complicado. “É a primeira coisa que é cortada [em tempos de crise], não só nas verbas públicas, mas na nossa vida”. Talvez por estar um pouco alheio ao centro comercial da cidade, o ateliê é pouco frequentado pelo consumidor local, concentrando o volume dos seus negócios à clientela de fora da cidade. De todo modo, reduzir o espaço a um mero balcão de vendas é o que menos importa a Patrícia – e também a Johannes, que há dois anos assumiu o comando do lugar e é quem, agora, mais tempo passa queimando peças no forno a lenha da oficina. Forno, aliás, que está com os dias contados: deverá ser substituído por outro, elétrico, para certo pesar de mãe e filho. Mas a mudança se dá em função da comodidade: com o forno tradicional, é preciso “doze horas de sofrimento” para dar têmpera às criações (“mas é muito bom”, ela concede).

Assim, antes de qualquer coisa, o ateliê é, para sua criadora, uma identidade. E o que ela espera é que seja também uma exposição permanente, uma celebração da cultura local e um chamado aos artistas e entusiastas de toda a região para que valorizem a arte desta terra. Ou, dito de forma mais sentimental, é a personificação de Patrícia Estivallet. “É a minha alma”.

(*) Entrevista concedida em 6 de fevereiro de 2016.

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