Não conheci o seu Antônio Silvino, mas ele entrou no radar do projeto Retratos de Porto Belo tão logo começamos a coletar histórias de personagens nascidas no Araçá.

As informações que nos passavam é que beirava os 100 anos de idade, marca que fazia de seu Antônio o morador mais antigo do tradicional bairro pesqueiro.

Diziam também que havia vivido uma época na ilha de Porto Belo. E mais: não dispensava um pito. “Seu Antônio do Cachimbo”, era como o chamavam.

Um dia, anos atrás, estacionei a minha Biz em frente à residência onde ele morava, na elevação que divide a “primeira” da “segunda” praia do Araçá. Lá me deram a entender que seu Silvino já não dispunha de muita paciência para compartilhar suas histórias com estranhos.

Não o vi, portanto. Agradeci, despedi-me e disse que voltaria outro dia. Os anos passaram e jamais voltei. De vez em quando, planejava: “Segunda que vem eu vou até lá”. Como sabemos, a “segunda que vem” é inimiga dos compromissos mal alinhavados.

De qualquer modo, após aquela visita, cultivei uma curiosidade sobre a personalidade de seu Silvino. Então, sempre que, em minhas corridas de final de tarde pelo Araçá, ao passar em frente à sua casa e vê-lo debruçado na janela do segundo andar, o famoso cachimbo na boca, eu o cumprimentava, atento a possíveis traços de rabugice.

“Boa tarde, seu Antônio Silvino!”

Algumas vezes eu recebia de volta um olhar desinteressado. Às vezes, um grunhido. Mas teve ocasiões em que ele me devolveu o cumprimento.

Como na última tarde de sábado que o vi, alguns dias antes de ele morrer, no dia 5 de setembro, aos 99 anos de idade.

A todos os motivos que os familiares e amigos têm para lamentar sua passagem, somamos o nosso de termos perdido a oportunidade de aprender com seu Silvino. São circunstâncias do trabalho, do tempo e das escolhas que fazemos. Mas é de se supor que seu legado esteja por aí, suas histórias lembradas com a devida saudade e a sua memória celebrada.

E que tenham sido 99 anos bem vividos.

Na manhã do último sábado, após quase um mês, voltei a correr pelo Araçá. Ao subir a elevação entre as praias, movido pelo hábito, levantei a cabeça e olhei para a janela de seu Silvino.

O velho cachimbo, naturalmente, não estava mais lá.

 

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